{"id":258,"date":"2023-11-17T18:22:09","date_gmt":"2023-11-17T21:22:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ipsislitteris.com\/?p=258"},"modified":"2024-04-15T21:47:30","modified_gmt":"2024-04-16T00:47:30","slug":"missiva-ao-diogo-mainardi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/2023\/11\/17\/missiva-ao-diogo-mainardi\/","title":{"rendered":"Missiva ao Diogo Mainardi"},"content":{"rendered":"\n<p>Indigna\u00e7\u00e3o contra o coment\u00e1rio do Diogo Mainardi, no programa Manhattan Connection.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa obsolesc\u00eancia\/assincronia se deve a que eu esque\u00e7o as coisas no computador (<em>escrevo demais, at\u00e9 mesmo para o meu \u201cgasto\u201d<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvi, h\u00e1 muito tempo, no programa do Caio (?), quando comentaram sobre a vit\u00f3ria da Dilma como presidente do Brasil, em que o Caio disse: &#8230;\u201dmas o Nordeste cresceu muito, n\u00e3o foi?\u201d, e o Diogo Mainardi haver respondido, com a aquele menosprezo t\u00edpico dos \u201cseres superiores\u201d: \u201cCresceu, mas s\u00f3 sair da mis\u00e9ria em que vive j\u00e1 \u00e9 um crescimento\u201d (<em>n\u00e3o o reproduzo aqui ipsis litteris, devido a lapsos de mem\u00f3ria<\/em>), mas me chocou realmente esse desprezo ao referir-se \u00e0quela regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o entendo por que as pessoas nascidas em outras \u00e1reas do pa\u00eds (<em>o sudeste, principalmente, que deve tanto ao esfor\u00e7o do trabalho nordestino dos migrantes naquela regi\u00e3o, para construir e contribuir mesmo com aquela cidade gigante que S\u00e3o Paulo \u00e9 hoje<\/em>); eu dizia que n\u00e3o entendo por que os nativos do \u201csul maravilha\u201d t\u00eam a insensibilidade de desprezar tanto os nascidos no nordeste, simplesmente por esse acidente geogr\u00e1fico (<em>acidentes podem acontecer em muitos campos, situa\u00e7\u00f5es e status da vida humana, &nbsp;que \u00e9 o nascimento)<\/em>. Muito me surpreende ver uma pessoa daquele n\u00edvel sociocultural e econ\u00f4mico, como um jornalista que j\u00e1 galgou tantos degraus e chegou at\u00e9 onde est\u00e1, morando no primeiro mundo \u2013 as hierarquias existem at\u00e9 para estratificar os diversos mundos existentes \u2013 carregado de tanto preconceito, que mais caracteriza a ignor\u00e2ncia e o desconhecimento, e n\u00e3o uma pessoa culta como ele, por tratar-se \u2013 como a pr\u00f3pria palavra indica \u2013 de um julgamento antecipado, desinformado, destitu\u00eddo de elementos de conhecimento, o que acho que n\u00e3o \u00e9 o caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, certamente \u00e9 um desconhecimento sobre o Nordeste: de Recife, que foi a sede da Superintend\u00eancia do Desenvolvimento do Nordeste (<em>SUDENE<\/em>), e \u00e9 hoje o segundo polo de sa\u00fade do Brasil, e tamb\u00e9m o segundo polo gastron\u00f4mico, s\u00f3 depois de S\u00e3o Paulo. E Fortaleza? Teresina? Macei\u00f3? Natal? Aracaju? Jo\u00e3o Pessoa? S\u00e3o Lu\u00eds? Salvador, que, al\u00e9m de tudo \u00e9 o celeiro da m\u00fasica brasileira? Todas essas s\u00e3o cidades nordestinas de belezas e riquezas, naturais e constru\u00eddas, incompar\u00e1veis, al\u00e9m de terem um n\u00edvel de desenvolvimento muito distante daquela mis\u00e9ria a que ele aludiu; a regi\u00e3o suportou at\u00e9 um estaleiro e uma refinaria de petr\u00f3leo, al\u00e9m de um parque industrial bem desenvolvido, o maior parque e\u00f3lico do pa\u00eds, uma culin\u00e1ria de categoria e o melhor artesanato brasileiro (<em>n\u00e3o se trata de material cafona, \u201cpr\u00f3prio da regi\u00e3o\u201d, como se poderia pensar<\/em>): s\u00e3o pe\u00e7as confeccionadas com fibras naturais, doces da mais fina classe, originais e est\u00e9ticas figuras de barro, finos bordados e rendas dos mais diversos tipos e m\u00e9todos de confec\u00e7\u00e3o, de rivalizar com os afamados e belos bordados da ilha da Madeira e tamb\u00e9m com a t\u00e3o alardeada renda europeia: a de Bruxelas, \u00e0s vezes preferida, porque confere mais status que a \u201cRenascen\u00e7a\u201d!<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, essa regi\u00e3o \u201cmiser\u00e1vel\u201d foi ber\u00e7o de escritores, poetas, compositores, educadores, juristas e outros intelectuais. N\u00e3o sei se todo mundo j\u00e1 ouviu falar de Castro Alves, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Jos\u00e9 Lins do Rego, Rui Barbosa, Gilberto Freire, Paulo Freire, Ariano Suassuna, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, Jos\u00e9 de Alencar, Raquel de Queiroz, Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, Greg\u00f3rio de Matos Guerra, Alu\u00edsio de Azevedo, Gon\u00e7alves Dias, Luis da C\u00e2mara Cascudo, Artur Azevedo, Dias Gomes, Capistrano de Abreu, Nelson Rodrigues, Manuel Bandeira, Aur\u00e9lio Buarque de Holanda e Br\u00e1ulio Bessa, entre outros, E do Chico An\u00edsio e do Renato Arag\u00e3o, que encheram este Brasil com a gra\u00e7a do seu humor e o humor da sua gra\u00e7a? Todos eles s\u00e3o \u201cpara\u00edbas\u201d, dos diversos estados dessa regi\u00e3o \u201ct\u00e3o deplor\u00e1vel\u201d.\u00a0 Caetano Veloso, Gilberto Gil, Alceu Valen\u00e7a, Geraldo Azevedo, Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Geraldo Vandr\u00e9, Dominguinhos, Lu\u00eds Gonzaga, Lenine, Gal Costa, Maria Beth\u00e2nia, Elba e Z\u00e9 Ramalho, Alcione, Torquato Neto, Capinam, Clara Nunes, todos esses que integram o grupo de \u201cpobret\u00f5es\u201d desta regi\u00e3o t\u00e3o desprezada pelo Sudeste!\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A regi\u00e3o tamb\u00e9m j\u00e1 deu ao nosso pa\u00eds 4 presidentes da Rep\u00fablica e alguns ministros (<em>Gilberto Gil, Jo\u00e3o Paulo Veloso<\/em>), e continua contribuindo. &nbsp;Tem at\u00e9 mulher bonita, como a Adriana Lima, a Fernanda Tavares e a Miss Brasil Monalisa Alc\u00e2ntara, belo exemplar de beleza negra; a Martha Rocha e a Em\u00edlia Correa Lima tamb\u00e9m j\u00e1 foram lindas representantes da beleza brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o quero me colocar aqui na mesma postura \u201cseparatista\u201d, fazendo aquele papel rid\u00edculo de advogar pela divis\u00e3o do nosso pa\u00eds em duas bandas diferentes. Tamb\u00e9m adoro e conhe\u00e7o os intelectuais das regi\u00f5es \u201cnobres\u201d do pa\u00eds, que apesar das grandes dist\u00e2ncias geogr\u00e1ficas (<em>s\u00e3o piores as dist\u00e2ncias de ordem social e moral, classista<\/em>), pelas enormes dimens\u00f5es do nosso pa\u00eds, considero tamb\u00e9m como irm\u00e3os, filhos da mesma p\u00e1tria, como o Machado de Assis, o Monteiro Lobato, Lima Barreto, Lygia Fagundes, Clarice Lyspector, Rubem Fonseca, Chico Buarque, o Jo\u00e3o Ubaldo, Ziraldo, Carlos Drummond, o saudoso Mill\u00f4r Fernandes (<em>de quem tenho at\u00e9 uma carta-resposta e um livro autografado<\/em>), o J\u00f4 (<em>que eu via todos os dias pelo Canal Globo Internacional<\/em>) e o Pedro Bial, entre outros. Felizmente, aprendi a conhecer e apreciar, sem inveja, muitos tipos de gente, principalmente aqueles que, sendo todos nossos, t\u00eam a capacidade de contribuir, da melhor maneira que podem, para um mundo melhor, sem tanta hierarquiza\u00e7\u00e3o de zona geogr\u00e1fica, situa\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica, cor ou ra\u00e7a, religi\u00e3o ou prefer\u00eancia sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, parece que estamos condenados a n\u00e3o poder fugir dos latiga\u00e7os do preconceito classista de muitos indiv\u00edduos que, por terem tido o privil\u00e9gio de estudar e pertencer a uma classe socioecon\u00f4mica premiada, tratam de menosprezar e esmagar os pobres escolhidos pela \u201cm\u00e1 sorte\u201d de terem vindo \u00e0 luz em uma zona geogr\u00e1fica desprestigiada, e s\u00e3o por isso v\u00edtimas do desprezo dos irm\u00e3os mais agraciados desde o ber\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se pode perceber, talvez pela minha maneira acertada de escrever e pela coloca\u00e7\u00e3o l\u00f3gica das minhas ideias, eu tamb\u00e9m deslizei os bancos de uma faculdade (<em>Letras<\/em>), apesar de pertencer a esse grupo que nunca vai deixar de ser origin\u00e1rio dos \u201ccabras da peste\u201d, \u201cpara\u00edbas\u201d, \u201cbaianos\u201d e outros gent\u00edlicos semelhantes, e &#8211; venhamos de onde venhamos &#8211; devemos ser \u201ctudo a mesma coisa\u201d, segundo o conceito preconceituoso, que nos mistura todos em um mesmo saco.<\/p>\n\n\n\n<p>O Nordeste possui indiv\u00edduos valiosos, que contribu\u00edram muito, com o seu saber e labor, para erguer bem alto o nome do Brasil, ao prestar servi\u00e7os em organismos internacionais de alto n\u00edvel, como a OIT, FAO, ONU, OMS, Banco Mundial, BID e muitos outros. Para citar s\u00f3 alguns, menciono o Celso Furtado, Alarico Jos\u00e9 da Cunha Junior, Antonio Cabral de Andrade, Carlyle e Delile Guerra de Macedo, Nailton Santos, Milton Santos, Jos\u00e9 Sarney&nbsp; e muitos outros de quem minha prec\u00e1ria mem\u00f3ria n\u00e3o consegue se lembrar. Tamb\u00e9m exerceram no seu pa\u00eds ilustres cargos p\u00fablicos, com a mais digna responsabilidade e efetividade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 lament\u00e1vel que hoje (<em>ou desde sempre<\/em>) a qualidade das pessoas, lugares e coisas tenha sua r\u00e9gua de medida representada pelo dinheiro, que \u00e9 um elemento t\u00e3o ex\u00f3geno \u00e0 gente, e que foi um objeto surgido pela necessidade de obedecer a uma equival\u00eancia de troca, tendo sido depois elevado pela maioria dos indiv\u00edduos a constituir um bezerro de ouro, adorado e venerado como o mais precioso valor, que conduz quem o possui ao mais elevado dos patamares. \u00a0Por isso, o Nordeste \u00e9 t\u00e3o desprezado e difamado: seu patrim\u00f4nio imaterial n\u00e3o recebe a atribui\u00e7\u00e3o de valor conferida ao Dom Dinheiro, que \u00e9 uma coisa impermanente, que vai e vem, que est\u00e1 fora de n\u00f3s e n\u00e3o nos confere nenhum outro atributo que n\u00e3o seja o de ser um pobre RICO, talvez lembrado depois como: \u201ct\u00e3o pobre que s\u00f3 tinha DINHEIRO!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Sei que o devido destinat\u00e1rio n\u00e3o terminar\u00e1 de ler estes escritos, por v\u00e1rias raz\u00f5es:<\/p>\n\n\n\n<ol type=\"1\">\n<li>Est\u00e1 muito ocupado, para perder tempo com assuntos que n\u00e3o s\u00e3o do seu interesse.<\/li>\n\n\n\n<li>A obsolesc\u00eancia da sua declara\u00e7\u00e3o aconselha a n\u00e3o lhe dar mais import\u00e2ncia e jog\u00e1-lo no cesto do lixo.<\/li>\n\n\n\n<li>\u00c9 longo demais para ocupar o precioso tempo que leva ganhando o que vale a pena: dinheiro<\/li>\n\n\n\n<li>A proced\u00eancia \u00e9 desconhecida, e talvez se trate de algum daqueles protestos bobos e mal escritos, que nem vale a pena considerar.<\/li>\n\n\n\n<li>\u201cNem conhe\u00e7o a signat\u00e1ria: talvez seja uma para\u00edba t\u00edpica, que s\u00f3 diz besteiras\u201c.<\/li>\n\n\n\n<li>Outras.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Mas, espero que este escrito sirva ao menos para meditar, se for o caso voltar atr\u00e1s (<em>vale o pleonasmo: sei que ningu\u00e9m jamais conseguiu voltar para a frente<\/em>) e descobrir que aquela regi\u00e3o t\u00e3o miser\u00e1vel, que parece s\u00f3 ter baianos e para\u00edbas, cabras da peste e Padim Ci\u00e7o, Menininha do Gantois, patu\u00e1s e figas, tamb\u00e9m tem vozes que sabem falar aos peixes, mostrando talvez at\u00e9 ao mundo que cabe\u00e7a n\u00e3o tem nada que ver com proced\u00eancia geogr\u00e1fica, nem com quantidade de vil metal acumulado, nem com cor de pele (<em>\u00e0s vezes tem at\u00e9 uns\/umas que saem desbotadinhos, e encontram muitas portas abertas e v\u00e3o correr mundo, com a \u201cra\u00e7a\u201d (n\u00e3o etnia, mas coragem) que Deus lhe deu, como eu fiz!<\/em>).\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Indigna\u00e7\u00e3o contra o coment\u00e1rio do Diogo Mainardi, no programa Manhattan Connection. 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