{"id":260,"date":"2023-11-21T17:11:27","date_gmt":"2023-11-21T20:11:27","guid":{"rendered":"https:\/\/ipsislitteris.com\/?p=260"},"modified":"2025-06-18T13:41:10","modified_gmt":"2025-06-18T16:41:10","slug":"nem-tanto-ao-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/2023\/11\/21\/nem-tanto-ao-mar\/","title":{"rendered":"Nem tanto ao mar&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 inacredit\u00e1vel que um pa\u00eds de gente verdadeira e solid\u00e1ria, emp\u00e1tica e caritativa, como \u00e9 o Brasil, esteja sofrendo epidemias de fraudes, corrup\u00e7\u00e3o, enganos, ladroagem e outras mumunhas mais. Sei disso porque, embora vivendo atualmente em outro pa\u00eds, vejo uns notici\u00e1rios verdadeiros e francos, com jornalistas que botam a boca no trombone e falam de todos os problemas brasileiros com a maior naturalidade; notici\u00e1rios como os do Brasil s\u00e3o dif\u00edceis de encontrar, pelo menos por aqui onde eu moro: vejo que o Brasil se vira pelo avesso, mostra todas as v\u00edsceras: as partes mais vexat\u00f3rias de visibilidade do nosso organismo. Neste caso, quando eu falo de virar-se pelo avesso e mostrar as suas imagens menos exib\u00edveis e agrad\u00e1veis, estou me referindo, entre outras coisas, \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o da desigualdade brasileira, que consiste em apresentar &#8211; tanto em imagens quanto em n\u00fameros e declara\u00e7\u00f5es &#8211; todas as falhas e mazelas do nosso Brasil, revelando tanto a fei\u00fara do nosso lado pobre quanto os dados referentes a essa situa\u00e7\u00e3o; quero dizer que os jornalistas exp\u00f5em o nosso lado menos agrad\u00e1vel para mostrar a todo mundo &#8211; algo assim como lavar roupa suja na rua, diante de todas as pessoas. N\u00e3o vejo, na maioria dos outros pa\u00edses, sinceridade e exposi\u00e7\u00e3o t\u00e3o grandes quanto as nossas. Eu sei, por ouvir dizer de algumas pessoas, ou por artigos escritos de outros pa\u00edses, que os pa\u00edses latino-americanos t\u00eam uma popula\u00e7\u00e3o alt\u00edssima &#8211; de uns 60 por cento, segundo declaram &#8211; no n\u00edvel extremo de pobreza, e que a pobreza tem crescido numa propor\u00e7\u00e3o assustadora de cada PIB, mostrando dados estat\u00edsticos para confirmar essas declara\u00e7\u00f5es, mas os pr\u00f3prios notici\u00e1rios n\u00e3o d\u00e3o conta desse tipo de not\u00edcias. Por exemplo, nunca vi na televis\u00e3o o retrato pelo avesso dos bairros miser\u00e1veis daqui, s\u00f3 aparecem quase os de classe alta na televis\u00e3o. \u00a0Falam, \u00e9 verdade, de assassinatos e brigas, entre vizinhos ou entre gangues de bandidos matando-se, mas nunca a exposi\u00e7\u00e3o a que o Brasil se permite. No Brasil, falam da desigualdade entre as pessoas, entre as crian\u00e7as, os escolares, mostrando fotos quase impublic\u00e1veis das condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de saneamento b\u00e1sico e moradia, que acredito serem aqui iguais ou muito parecidas: casebres demasiado in\u00f3spitos e desconfort\u00e1veis, feitos do material que encontram \u00e0 m\u00e3o: folhas de pl\u00e1stico e papel\u00e3o, folhas de flandres; mostram esgotos sujos escorrendo nos lugares por onde deveria passar um saneamento b\u00e1sico decente, com redes de esgotos sanit\u00e1rios. As pessoas, feias de pobreza e de tristeza, de falta de recursos para mostrar a beleza que algumas delas poderiam ter. Quem pode preocupar-se em ser bonito, preocupado com a fome que a\u00e7oita o pa\u00eds, com os filhos magros e barrigudos, de comer porcarias, ou tudo o que encontram, sem poder selecionar o que comer? Em muitos outros pa\u00edses, tudo \u00e9 diferente: tudo parece ser de fachada, s\u00f3 se exibe o que \u00e9 mostr\u00e1vel e digno de elogios! A baixeza \u00e9 escondida. Por isso, eu tenho tanta dificuldade de fazer doa\u00e7\u00f5es ou atos de caridade, pois aqui quase n\u00e3o vejo pobres na rua: devem estar todos ocultos em seus bairros pobres e miser\u00e1veis, ent\u00e3o n\u00e3o me surge, como com os brasileiros, aquela como\u00e7\u00e3o e pena, t\u00e3o grandes que me d\u00e3o vontade de chorar e me levam ao impulso de ajudar (<em>mas, o que me impossibilita \u00e9 o valor que eu teria que pagar pelo pouco que posso dar, acrescido ainda de um dinheir\u00e3o em comiss\u00f5es banc\u00e1rias, al\u00e9m do pr\u00f3prio capital pretendido convertido e reconvertido de moeda a moeda<\/em>). Por isso, me resigno s\u00f3 a ter pena e lamentar.<\/p>\n\n\n\n<p>O povo brasileiro \u00e9 aberto demais, para bem e para mal: todo mundo sabe quando as pessoas est\u00e3o sofrendo, porque l\u00e1, na minha querida p\u00e1tria, ningu\u00e9m cala nada, mostra tudo, e a imagem que eu tenho \u00e9 essa: de virar-se pelo avesso, tanto as pessoas como o pa\u00eds, como se vira um vestido, uma ave que se vai cozinhar ou dissecar, isto \u00e9: os problemas s\u00e3o literalmente escancarados. Acho que nenhuma das posi\u00e7\u00f5es \u00e9 boa: nem tanto ao mar nem tanto \u00e0 terra. Acho que um pouco de cr\u00edtica ao pr\u00f3prio ber\u00e7o \u00e9 desej\u00e1vel, como tamb\u00e9m um pouco mais de prud\u00eancia ao mostrar as desgra\u00e7as do pr\u00f3prio solo p\u00e1trio seria mais conveniente, principalmente publicadas em um canal de televis\u00e3o de alcance internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma forte raz\u00e3o pela qual eu n\u00e3o &nbsp;sinto aqui esse impulso de fazer caridade: acho que a pobreza deve estar escondida, porque sei que pobreza existe, mas eu n\u00e3o sei onde est\u00e1 metida. E eu aqui nem moro em um bairro de classe alta, como s\u00e3o os desplantes de grandeza observados; sei que meu bairro tampouco \u00e9 t\u00e3o pobre; antes, era desprezado pela maioria da popula\u00e7\u00e3o, mas como a fam\u00edlia do meu marido morava por aqui \u2013 e eles est\u00e3o longe de serem de baixa categoria, nem social nem econ\u00f4mica, nem de educa\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica baixa: meu sogro era engenheiro civil, e todos os filhos homens tamb\u00e9m estudaram; meu marido \u00e9 um brilhante advogado, meus cunhados s\u00e3o bi\u00f3logo e contador, respectivamente \u2013 eu escolhi ficar morando no mesmo bairro; mas, voltando \u00e0 pobreza do pa\u00eds, eu nunca me deparo com pessoas em grau de necessidade como os desamparados do Brasil. Por isso, n\u00e3o tenho a compaix\u00e3o que tenho pelos pobres do Brasil, que se mostram em toda a sua franca nudez, tais como s\u00e3o, em qualquer parte da cidade.&nbsp; N\u00e3o \u00e9 simplesmente que no Brasil a pobreza seja ostensiva: os pobres v\u00e3o \u00e0 rua porque s\u00e3o empregadas dom\u00e9sticas, bab\u00e1s, pedreiros, engraxates, carregadores, padeiros, encanadores, estofadores, marceneiros, guardas noturnos e os demais enumerados no \u201cBrejo da Cruz\u201d, do Chico Buarque <em>(baleiros e gar\u00e7ons)<\/em>, e t\u00eam que procurar trabalho onde est\u00e3o as suas fontes de emprego ou renda: aquelas que precisam dessas atividades e que as podem pagar. Mas, essas pessoas nem s\u00e3o as de pior condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica: se s\u00e3o empregadas, ganham algum dinheiro com que possam manter suas fam\u00edlias. Eu me refiro \u00e0 pobreza extrema, ao alto grau de mis\u00e9ria que sei tamb\u00e9m existir aqui. Acho que essas pessoas n\u00e3o saem (<em>v\u00e3o fazer o que na rua?<\/em>). Devem ficar s\u00f3 em casa, escondidos em casa com seus filhos feios e raqu\u00edticos pela inani\u00e7\u00e3o. Mas, como eu tamb\u00e9m n\u00e3o saio e, menos, vou \u00e0 periferia miser\u00e1vel que a cidade deve ter, e onde os esconde, n\u00e3o vejo esse tipo de gente, que no Brasil \u00e9 mostrada na televis\u00e3o como exemplos do submundo, como objeto da caridade e da compaix\u00e3o do governo, das car\u00eancias b\u00e1sicas da popula\u00e7\u00e3o, coisa que aqui n\u00e3o \u00e9 revelada com tanta exposi\u00e7\u00e3o quanto no nosso pa\u00eds!&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 inacredit\u00e1vel que um pa\u00eds de gente verdadeira e solid\u00e1ria, emp\u00e1tica e caritativa, como \u00e9 o Brasil, esteja sofrendo epidemias de fraudes, corrup\u00e7\u00e3o, enganos, ladroagem e outras mumunhas mais. 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