{"id":262,"date":"2023-11-21T17:35:38","date_gmt":"2023-11-21T20:35:38","guid":{"rendered":"https:\/\/ipsislitteris.com\/?p=262"},"modified":"2024-09-15T18:38:16","modified_gmt":"2024-09-15T21:38:16","slug":"por-que-esse-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/2023\/11\/21\/por-que-esse-preconceito\/","title":{"rendered":"Por que esse preconceito?"},"content":{"rendered":"\n<p>Fala-se muito de preconceito, desigualdade e discrimina\u00e7\u00e3o no Brasil. Claro que n\u00f3s temos todas essas mazelas separatistas, mas todo mundo se esquece de outro preconceito muito frequente no Brasil, e igualmente humilhante e sem l\u00f3gica: o menosprezo dirigido pelos sulistas aos nordestinos, esses \u201cbaianos\u201d ou \u201cpara\u00edbas\u201c, com suas \u201cbaianadas\u201d, como eles dizem para referir-se a n\u00f3s, ou a algum nosso \u00a0comportamento diferente, \u00e0 nossa proced\u00eancia geogr\u00e1fica.\u00a0 A\u00ed nessa denomina\u00e7\u00e3o, j\u00e1 est\u00e1 impl\u00edcita a condi\u00e7\u00e3o de \u201cbrega\u201d, \u201cde mau gosto\u201d. \u00c9 verdade que, dentro do nosso imenso territ\u00f3rio, parece que n\u00f3s temos dois Brasis: um, de pessoas brancas e educadas, sem nenhum tipo de restri\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, morando em casas ou apartamentos de muito boa qualidade, bem localizados em bairros nobres de cada cidade, com todo o conforto poss\u00edvel, todos os servi\u00e7os b\u00e1sicos de luz, \u00e1gua, saneamento e energia dispon\u00edveis, filhos que estudam em boas escolas particulares, com direito a todos os dispositivos eletr\u00f4nicos; na maioria das vezes cada filho tem seu pr\u00f3prio carro, enfim, todo mundo sabe do que estou falando, e conhece uma fam\u00edlia assim. E outro Brasil, integrado por pessoas humildes de condi\u00e7\u00e3o, geralmente de pele preta ou escura, sem nada de instru\u00e7\u00e3o, na depend\u00eancia da caridade p\u00fablica ou da empatia privada para sobreviver; filhos amontoados em um mesmo espa\u00e7o, sem condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de esgotos, \u00e1gua, luz el\u00e9trica nem telefone. S\u00f3 que a divis\u00e3o desses dois mundos n\u00e3o tem como limites necessariamente a regi\u00e3o do pa\u00eds em que vivem: ela \u00e9 principalmente socioecon\u00f4mica: deve-se \u00e0 situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de que cada um desfruta. Quero dizer que as cidades do nordeste, al\u00e9m desses falados \u201cbaianos\u201d ou \u201cpara\u00edbas\u201d, t\u00eam tamb\u00e9m gente que vive em muito boas condi\u00e7\u00f5es materiais, assim como os estados do sul tamb\u00e9m t\u00eam gente pobre, que se mostra similar \u00e0 do nordeste. Ent\u00e3o, essa discrimina\u00e7\u00e3o j\u00e1 aludida n\u00e3o \u00e9 geogr\u00e1fica nem tem raz\u00e3o de ser! Acho que as nossas principais diferen\u00e7as, no pa\u00eds inteiro, s\u00e3o socioecon\u00f4micas, e n\u00e3o devidas \u00e0 proced\u00eancia geogr\u00e1fica do norte, sul ou leste e oeste! \u00a0Todas as regi\u00f5es possuem gente pobre e rica, como ficou patente agora, com as incessantes inunda\u00e7\u00f5es havidas no sul\/sudeste, e as secas ocorridas no norte. \u00a0Muitas vezes, pode tratar-se (<em>esses cr\u00edticos<\/em>) de gente de baixa condi\u00e7\u00e3o cultural, educacional ou social: assim nos discriminam (<em>n\u00e3o importa se somos pessoas iguais, como se o fato de termos nascido geograficamente em regi\u00f5es mais pobres ou mais atrasadas que o sul trouxesse impl\u00edcito aquele estigma de pessoas inferiores<\/em>). Parece que, quanto mais baixo o n\u00edvel educativo\/cultural e social do povo sulista, maior \u00e9 essa discrimina\u00e7\u00e3o. Esse ep\u00edteto \u00e9 uma generaliza\u00e7\u00e3o muito pouco adequada, porque n\u00e3o constitu\u00edmos uma massa homog\u00eanea; somos de diferentes proced\u00eancias: piauienses, cearenses, baianos, pernambucanos, sergipanos, alagoanos, potiguares, maranhenses, paraibanos, nem todos compostos de gente pobre ou de gosto duvidoso, nem sempre ignorantes, mal-educados e incultos. Ao contr\u00e1rio, o nordeste est\u00e1 cheio de boas universidades e de professores, cientistas e intelectuais do n\u00edvel dos sulistas ou do sudeste. Talvez os intelectuais do sul n\u00e3o tenham tanto desprezo pelos nordestinos, porque conhecem os seus pares desta desprezada regi\u00e3o, e sabem que eles t\u00eam a mesma estatura de intelig\u00eancia, cultura e conhecimento que as pessoas de qualquer outra origem geogr\u00e1fica. Conhecem os nossos escritores, poetas e outros profissionais, assim como a medida cultural e de conhecimento destes, similar \u00e0 sua, por isso n\u00e3o os discriminam nem fazem mofa ou piadas sobre o seu ber\u00e7o. Da\u00ed, eu concluo que esse preconceito, al\u00e9m de constituir uma demonstra\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia (<em>de como essa regi\u00e3o j\u00e1 deu ao pa\u00eds figuras ilustres, intelectuais de alt\u00edssimo n\u00edvel<\/em>), denota ainda uma pobreza de esp\u00edrito sem par, julgando os indiv\u00edduos como uma massa homog\u00eanea.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguma vez cometi a \u201cfalta de educa\u00e7\u00e3o\u201d de discutir com um sulista (<em>mec\u00e2nico<\/em>), em minha casa, aonde eu tinha convidado a fam\u00edlia dele para almo\u00e7ar; tudo se deu porque ele come\u00e7ou a criticar, dizendo que, quando viam em S\u00e3o Paulo \u201caquela gente\u201d vestindo umas roupas cor de ab\u00f3bora, mal-ajambradas e cafonas, podiam apostar que eram \u201cbaianos\u201d (<em>generalizando, porque ele sabia que eu sou do Piau\u00ed<\/em>). Eu lhe disse que essa \u201cxenofobia\u201d do sul para com o nordeste n\u00e3o tinha nenhuma raz\u00e3o de ser, que a simples caracter\u00edstica de nacionalidade n\u00e3o determinava a categoria das pessoas, e que \u201ceu, por exemplo, nascida no Piau\u00ed, que gente pobre e de mau gosto existe em todos os lugares, e que eu \u201cn\u00e3o me comparo com voc\u00ea, que nem chega aos meus p\u00e9s, em mat\u00e9ria de cultura e prepara\u00e7\u00e3o profissional\u201d. Desci at\u00e9 o n\u00edvel dele, reconhe\u00e7o, porque ele me quis me diminuir \u2013 a mim e \u00e0 minha regi\u00e3o, achando-se melhor, s\u00f3 por pertencer a S\u00e3o Paulo, que \u00e9 o estado mais rico do Brasil (<em>assumindo que todo esse dinheiro pertencia a ele<\/em>), sendo eu de mais baixa categoria que ele \u2013 por ter nascido no Piau\u00ed.\u00a0 N\u00e3o sou racista, nem discriminadora, n\u00e3o trato mal \u00e0s pessoas de n\u00edvel econ\u00f4mico\/social mais baixo do que o meu, mas tamb\u00e9m n\u00e3o me deixo pisar. S\u00f3 conheci uma pessoa instru\u00edda, bem remunerada \u2013 penso &#8211; de alto n\u00edvel social e profissional, de quem j\u00e1 ouvi alguma vez uma refer\u00eancia desairosa a n\u00f3s, do nordeste: o jornalista Diogo Mainardi. Nem tenho a maturidade \u2013 acho que vou cair de podre \u2013 para ser tolerante e bondosa para com os ignorantes da nossa verdadeira condi\u00e7\u00e3o, como era o caso daquele paulista (<em>ignorante mesmo<\/em>) e desse outro sulista, que teria todas as condi\u00e7\u00f5es de ser informado e culto, e tinha a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para isso (<em>com filho nascido em maternidade italiana, escolhida por ele<\/em>).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o falo aqui s\u00f3 dos nordestinos, vivos e mortos, tais como o Rui Barbosa, Gon\u00e7alves Dias, o brilhante Castro Alves (<em>prematuramente falecido<\/em>), Alu\u00edsio de Azevedo, Raquel de Queiroz, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Jos\u00e9 de Alencar, Manuel Bandeira, Ariano Suassuna, Celso Furtado, Milton Santos (<em>e Nailton, tamb\u00e9m<\/em>), Graciliano Ramos, Jorge Amado, Augusto dos Anjos, Ferreira Gullar, nem dos compositores e cantores (<em>homens e mulheres<\/em>) &#8211; como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Torquato Neto, Fagner, Belchior, Br\u00e1ulio Bessa, Capinam, Geraldo Azevedo, Alceu Valen\u00e7a, Lenini, Maria Beth\u00e2nia, Gal Costa, Maria Gadu, Alcione, Elba Ramalho, Z\u00e9 Ramalho e outros que certamente vou esquecer, pois tenho j\u00e1 muito tempo morando fora do pa\u00eds &#8211; porque esses j\u00e1 s\u00e3o famosos e considerados. Falo tamb\u00e9m da gente an\u00f4nima do nordeste, que tem valor ou \u201cra\u00e7a\u201d (<em>no sentido de coragem e for\u00e7a<\/em>), arte (<em>conhecida ou n\u00e3o<\/em>), que mostra seu valor cultural, art\u00edstico, artesanal &#8211; assim como sua resili\u00eancia &#8211; e em outros campos. Ent\u00e3o, por que menosprezar as pessoas, s\u00f3 pelo fato de terem nascido em uma zona geogr\u00e1fica mais pobre \u2013 mas cheia de riqueza hist\u00f3rica, liter\u00e1ria, po\u00e9tica, art\u00edstica, cultural, artesanal e diversificada? Essa \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de discrimina\u00e7\u00e3o e \u201cxenofobia\u201d, insuport\u00e1veis e inadmiss\u00edveis, porque dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds.\u00a0 Eu tive a sorte de nascer mulher, de pele branca, cabelo escuro (<em>agora, branco<\/em>), de ter estudado em universidade, ter traquejo social, com uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social razo\u00e1vel, sempre fui respeitada, reconhecida e at\u00e9 admirada, e sempre gozei de muito bom conceito, em meu pa\u00eds e em outros \u2013 ent\u00e3o, n\u00e3o posso entender nem aceitar ser objeto de discrimina\u00e7\u00e3o de algum dos meus compatriotas, s\u00f3 pelo fato de eu ter nascido no nordeste. Isso \u00e9 um tipo de preconceito \u201ccego\u201d, como o racial &#8211; que n\u00e3o v\u00ea a pessoa que est\u00e1 atr\u00e1s daquela pele negra &#8211; nem aquela que est\u00e1 por tr\u00e1s dessa proced\u00eancia, aparentemente humilde. Jogam tudo \u201cno mesmo saco\u201d e n\u00e3o compreendem que os indiv\u00edduos que assim se vestem e se comportam devem essa apar\u00eancia e condi\u00e7\u00e3o \u00e0 pobreza e humildade em que nasceram e continuaram a viver, mesmo por falta de uma m\u00e3o caridosa que as tivesse puxado para fora daquela situa\u00e7\u00e3o, permitindo-as que alcan\u00e7assem os degraus de conhecimento e classe que podem distinguir as \u201cpessoas de bem\u201d dos \u201chumilhados e ofendidos\u201d, a quem nunca foi dada uma oportunidade de desenvolver-se!<\/p>\n\n\n\n<p>Todos esses assuntos me deixam profundamente triste. Refiro-me aos maus tratos &#8211; de qualquer natureza: pela cor da pele ou pela condi\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica &#8211; de alguns indiv\u00edduos ou grupos para com outros grupos ou indiv\u00edduos da mesma nacionalidade. Acho que, devido \u00e0 minha idade avan\u00e7ada, j\u00e1 ando com as l\u00e1grimas penduradas, \u00e0 flor da minha pele madura, e j\u00e1 n\u00e3o aguento as ofensas ou zombarias (<em>o que tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de ofensa<\/em>) dirigidas contra os meus compatriotas de regi\u00e3o pobre e subdesenvolvida, que na verdade j\u00e1 nem \u00e9 tanto assim: mesmo os estados mais pobres da regi\u00e3o (<em>como Sergipe, Piau\u00ed, Alagoas e Rio Grande do Norte<\/em>) mostram agora um bom desenvolvimento nas suas cidades, compar\u00e1veis a alguns de cidades de todo o nosso Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria desej\u00e1vel uma aprecia\u00e7\u00e3o dos sulistas sobre n\u00f3s, nordestinos, destitu\u00edda de preven\u00e7\u00e3o e preconceito, e s\u00f3 com a disposi\u00e7\u00e3o de analisar-nos verdadeiramente como seus compatriotas, filhos da mesma terra, tratando-nos com a mesma considera\u00e7\u00e3o dispensada aos irm\u00e3os das outras regi\u00f5es, fazendo uma avalia\u00e7\u00e3o objetiva, e n\u00e3o sem conhecimento do que est\u00e3o julgando, e vendo-nos como somos realmente: pessoas dotadas da mesma capacidade, Intelig\u00eancia e preparo dos sulistas, ou como irm\u00e3os de condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e culturais menos favorecidas, que s\u00f3 merecem a nossa comisera\u00e7\u00e3o e a nossa vontade de ajudar e ensinar, e n\u00e3o o seu tratamento por n\u00f3s como objeto de zombaria e desprezo preconcebido! &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fala-se muito de preconceito, desigualdade e discrimina\u00e7\u00e3o no Brasil. 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