{"id":266,"date":"2023-11-21T17:41:59","date_gmt":"2023-11-21T20:41:59","guid":{"rendered":"https:\/\/ipsislitteris.com\/?p=266"},"modified":"2025-05-10T19:09:43","modified_gmt":"2025-05-10T22:09:43","slug":"sonhando-de-sonhar-acordada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/2023\/11\/21\/sonhando-de-sonhar-acordada\/","title":{"rendered":"Sonhando de sonhar acordada"},"content":{"rendered":"\n<p>Eu gostaria de ter, todos os dias, ideias para escrever, fosse o que fosse: artigos, coment\u00e1rios, cr\u00f4nicas etc. Mas nem todo dia me v\u00eam \u00e0 cabe\u00e7a bons pensamentos para escrever; parece que minha cabe\u00e7a secou, mirrou, que n\u00e3o tem mais nada dentro que eu possa dizer a ningu\u00e9m. Entretanto, eu escrevia como quem est\u00e1 vomitando ou com diarreia, que tem que botar tudo pra fora. Ou ser\u00e1 que \u00e9 o ambiente que n\u00e3o me permite escrever o que eu tenho vontade?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, que ambiente? Moro numa casa grande e muito boa, bonita e bem arrumada, agrad\u00e1vel e aconchegante. Tenho um quarto acondicionado para escrever, com dois sof\u00e1s, um ba\u00fa, uma parede\/estante de madeira com porta-retratos e adornos, meu computador e uma impressora, al\u00e9m de um escrit\u00f3rio (<em>outro espa\u00e7o f\u00edsico<\/em>), pr\u00f3prio para trabalhar, quando faz bom tempo. Ainda bem que eu j\u00e1 escrevi muitas coisas e assim pude compor meus dois livros, sen\u00e3o estariam vazios de sentido; n\u00e3o vou copiar os outros, inteligentes como o Rubem Alves, ou como a Martha Medeiros, que escreve lindamente, com ideias brilhantes, sobre fatos t\u00e3o corriqueiros que ningu\u00e9m acharia nem que devia mencionar. Mas a\u00ed \u00e9 que est\u00e1 a verve liter\u00e1ria, que parece que eu perdi: escrever todo dia, seja sobre que assunto for. Nem precisa ser nada transcendental, pode ser uma coisa banal, para fazer os outros se interessarem, coisinhas simples, maluquices, mesmo. A minha cabe\u00e7a parece que est\u00e1 se esgotando, mas eu n\u00e3o posso acreditar nisso, pois h\u00e1 muita gente que escreve sobre fatos simples e saem coisas bem agrad\u00e1veis, mesmo a uma avan\u00e7ada idade, como a minha!<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho que me propor a exercitar o ato de escrever, nem que seja pelo h\u00e1bito de obrigar o pobre c\u00e9rebro a trabalhar, como um escravo. Falar nisso, eu gostaria de saber mais sobre a escravatura, ou ter ideias sobre ela, para poder escrever tudo que eu quisesse. Tenho que ler e me informar sobre esse antigo regime brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 que um c\u00e9rebro f\u00e9rtil &#8211; como a minha capacidade de ter filhos &#8211; se esvaziou assim? Parece mentira! Tamb\u00e9m estou est\u00e9ril quanto \u00e0 minha capacidade de decorar; neste campo, eu ainda sinto ideias que podem vir de onde venham, mas quanto \u00e0 escrita estou um pouco seca, como Yerma, de Garcia Lorca, que dizia que estava seca por dentro, porque perdeu a capacidade de procriar. Eu estou est\u00e9ril de ideias, me falta a fecundidade das mulheres jovens para parir tanto quanto j\u00e1 o fiz antes (<em>6 filhos<\/em>, <em>que para os dias de hoje \u00e9 bastante!<\/em>). Eu gostaria de alguma coisa que me recordasse a minha abund\u00e2ncia anterior, de parir filhos e ideias, de tudo o que me vinha \u00e0 mente, que n\u00e3o era pouco. Agora, s\u00e3o s\u00f3 umas gotinhas, como esses chuviscos que come\u00e7am e acabam sem muita vontade, s\u00f3 com uma espremidinha nas nuvens.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que n\u00e3o h\u00e1 muita fertilidade nesta casa, e at\u00e9 a minha capacidade de sentir prazer arrefeceu um pouco. Parece que agora eu cheguei a uma fase de muita \u201cespiritualidade\u201d, como se fossem coisas incompat\u00edveis. N\u00e3o tem nada que ver! E isso n\u00e3o existe, nem da minha parte, nem do meu marido. Eu o amo muito, e esse sentimento \u00e9 rec\u00edproco, apesar do longo tempo do nosso casamento. N\u00e3o sou como o &nbsp;Leandro Karnal, que n\u00e3o acredita no casamento (<em>isto \u00e9, ele acha que \u00e9 <u>a \u00fanica coisa capaz de acabar com o amor<\/u>, como opinou uma vez a respeito do celibato dos padres<\/em>); por outro lado, n\u00e3o acredita no amor do casamento. Diz que o casamento acaba quando a mulher come\u00e7a a lavar as calcinhas no banheiro, passa a usar Crocs, o que para ele (<em>Leandro<\/em>) j\u00e1 indica o fim da vida conjugal. Ali\u00e1s, ele \u00e9 muito c\u00e9tico quanto \u00e0s uni\u00f5es, parece que n\u00e3o cr\u00ea em nada do que seja rom\u00e2ntico, s\u00f3 em coisas que o levam a acabar, numa rela\u00e7\u00e3o est\u00e9ril como ele pensa; parece que s\u00f3 acredita em pessoas intelectuais e bonitas, acho que \u00e9 isso. Vou me dedicar a escrever todo dia, pois parece que assim eu posso usar o meu aben\u00e7oado c\u00e9rebro f\u00e9rtil de ideias, como s\u00e3o f\u00e9rteis o meu corpo e o meu aparelho reprodutivo, que s\u00f3 parou mesmo cortando as trompas, sen\u00e3o estaria parindo at\u00e9 o fim dos meus dias. Eu poderia ter mais filhos do Alberto, montes de filhos, j\u00e1 que ele tem condi\u00e7\u00f5es de alimentar e manter. Curioso como nem todas as coisas se d\u00e3o no momento certo: eu, que tinha uma facilidade enorme para conceber e parir, n\u00e3o tinha dinheiro para sustentar. Agora, que tenho dinheiro para sustentar, j\u00e1 n\u00e3o posso conceber nem parir. Mas, se o mundo permitisse que as pessoas f\u00e9rteis come\u00e7assem a botar filhos no mundo, como os pobres, coitados, n\u00e3o haveria comida para alimentar todos (<em>parece que Malthus tinha raz\u00e3o<\/em>), mesmo que trabalhassem como eu trabalho, e que tivessem as nossas condi\u00e7\u00f5es para manter.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o era bem sobre isso que eu queria falar n\u00e3o, isso foi uma enorme digress\u00e3o, esperando que as boas ideias me venham \u00e0 cabe\u00e7a; acho que eu queria falar era sobre as coisas do Brasil, que \u00e9 o meu pa\u00eds amado, que eu adoro, e por isso adoro saber das suas coisas vantajosas, como as abundantes e exuberantes florestas e praias, lagos e lagoas, cascatas, rios e gente. Mas, n\u00e3o tem jeito: hoje n\u00e3o sai, s\u00f3 puxando com um gancho, como se fosse pra desentupir.&nbsp; Eu \u00e0s vezes me sentava e come\u00e7ava a escrever: escrevia mil e poucas palavras, como uma desesperada. Agora, s\u00f3 digo besteiras, que quase ningu\u00e9m quer ler. Mas, pelo menos, j\u00e1 foi um exerc\u00edcio de escrita. Tenho que me acostumar a sentar todos os dias ao computador e desfiar um ros\u00e1rio nem que seja de asneiras. Mas o que \u00e9 bom \u00e9 escrever aquilo que a gente est\u00e1 gostando, pois assim sabe que os outros tamb\u00e9m ir\u00e3o apreciar. Assim como a Martha Medeiros, que escreveu sobre a saudade que d\u00f3i: saudade de quem foi embora, mas s\u00f3 se voc\u00ea gostava dele, sen\u00e3o n\u00e3o teria aquele sofrimento de que ela fala, seria s\u00f3 uma lembran\u00e7a boa, uma saudade suport\u00e1vel, que n\u00e3o doeria, pois n\u00e3o era a falta de quem voc\u00ea gostava. Ta\u00ed: eu podia escrever imaginando como seria me separar do Alberto, para ver se ainda gosto dele como eu gostava antes e como ele gostava de mim; lembrar das coisas e momentos que a gente j\u00e1 desfrutou antes de chegar a&nbsp; esta acomoda\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um pouco agora a nossa vida de casados; eu queria que tudo voltasse: aquela paix\u00e3o louca que eu sentia quando estava gr\u00e1vida do Beto, que me dava um frio na barriga s\u00f3 de me lembrar como seria quando ele chegasse l\u00e1 pra me visitar. Como foi bom o nosso come\u00e7o, nosso meio, mas, como ser\u00e1 o nosso fim? Tamb\u00e9m n\u00e3o quero nem pensar!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho que pensar nisso, pois eu n\u00e3o vou determinar nem o tempo nem a causa da minha morte, nem a dele, tudo acontecer\u00e1 quando a vida decidir que j\u00e1 \u00e9 tempo de cessar, de deter o rel\u00f3gio. Incr\u00edvel \u00e9 como uma pessoa como eu, que n\u00e3o acredita em destino e atribui tudo \u00e0 nossa forma de viver e encarar as coisas que a vida nos vai tra\u00e7ando&#8230; (<em>n\u00e3o, a vida n\u00e3o nos tra\u00e7a nada, quem tra\u00e7a \u00e9 a gente. Isso foi s\u00f3 um engano de dedo ao digitar; eu ia dizer trazendo e saiu tra\u00e7ando<\/em>). Acho que a morte, sim, \u00e9 uma quest\u00e3o de fado: a gente vai morrer quando e como ele tra\u00e7ar e determinar (<em>\u00e0s vezes tamb\u00e9m depende de como a gente se trata, de como se comporta, n\u00e3o se expondo a situa\u00e7\u00f5es de extremo risco, ou tamb\u00e9m de como encara este passeio divertido e \u00e0s vezes dif\u00edcil de caminhar chamado vida; creio que todo mundo tem um pouco de responsabilidade sobre a dura\u00e7\u00e3o da sua vida<\/em>). Bom, mas eu ia dizendo que a vida n\u00e3o nos tra\u00e7a nada, pode quando muito trazer, porque as coisas v\u00e3o acontecendo, meio independentemente da nossa decis\u00e3o, porque nem tudo depende de n\u00f3s: se chove ou se faz sol, n\u00e3o depende da nossa vontade. O que a gente pode \u00e9 programar as atividades para um dia de sol ou de chuva: por exemplo, se faz sol, posso programar um passeio ao ar livre, um caf\u00e9 no jardim; se chove, posso planejar ver um bom filme, ouvir uma palestra e tra\u00e7ar outras atividades para fazer dentro de casa. A nossa vida sempre depende da gente, embora n\u00e3o possamos determinar as condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas do dia; o que podemos \u00e9 aproveitar esse tempo chuvoso ou assoleado, para desenvolver a\u00e7\u00f5es que sejam compat\u00edveis com o que a meteorologia nos oferece. Tenho que fazer como o vendedor ambulante de uma das minhas escrevinhan\u00e7as: se fizer sol, engraxa sapatos; se chover, vende lindas sombrinhas de pl\u00e1stico, ou de tecido. O que eu n\u00e3o posso \u00e9 me prender em casa, sem fazer nada, s\u00f3 porque o c\u00e9u disse hoje que iria chorar todo o tempo&#8230; Eu n\u00e3o tenho que chorar com ele, se n\u00e3o estiver triste, ent\u00e3o arranjo uma atividade para fazer dentro de casa, para me contrapor \u00e0 sua tristeza.&nbsp; Ou ent\u00e3o, juntar-me \u00e0 alegria dele, fazendo um piquenique no jardim. De qualquer modo, aproveitei bem o clima que o dia me mandou&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que sa\u00ed um pouco do itiner\u00e1rio do come\u00e7o: parece que j\u00e1 comecei a dizer coisas que n\u00e3o t\u00eam muito que ver com a minha preocupa\u00e7\u00e3o do in\u00edcio: de estar sem ideias, seca como um deserto, para escrever. Depois continuo, para ver se encontro um caminho cheio de flores para seguir&#8230;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu gostaria de ter, todos os dias, ideias para escrever, fosse o que fosse: artigos, coment\u00e1rios, cr\u00f4nicas etc. Mas nem todo dia me v\u00eam \u00e0 cabe\u00e7a bons pensamentos para escrever; parece que minha cabe\u00e7a secou, mirrou, que n\u00e3o tem mais nada dentro que eu possa dizer a ningu\u00e9m. 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