{"id":284,"date":"2023-12-07T00:00:17","date_gmt":"2023-12-07T03:00:17","guid":{"rendered":"https:\/\/ipsislitteris.com\/?p=284"},"modified":"2025-07-14T17:50:29","modified_gmt":"2025-07-14T20:50:29","slug":"determinismo-ou-ma-sorte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/2023\/12\/07\/determinismo-ou-ma-sorte\/","title":{"rendered":"Determinismo ou m\u00e1 sorte"},"content":{"rendered":"\n<p>Talvez eu at\u00e9 pare\u00e7a <em>(ou essa minha \u00eanfase excessiva seja mesmo)<\/em> demasiado repetitiva, nos meus protestos contra qualquer tipo de discrimina\u00e7\u00e3o ou preconceito, como aquele contra a ra\u00e7a negra, contra a homofobia, contra os pobres, contra os nordestinos &#8211; tamb\u00e9m do Brasil \u2013 por parte dos sulistas brasileiros, mas \u00e9 que me indignam todas essas esp\u00e9cies de \u201csentimento de superioridade\u201d, manifestadas contra pessoas consideradas \u201cinferiores\u201d, quando isso n\u00e3o passa de uma forma de julgarem-se melhores &#8211; sem nenhum fundamento &#8211; do que aquelas pessoas que, muitas vezes, o que nunca tiveram foi a oportunidade de mostrar seu talento oculto, ou sua beleza escondida, ou sua intelig\u00eancia obstru\u00edda, ou sua bondade e altru\u00edsmo impossibilitados por uma situa\u00e7\u00e3o de precariedade econ\u00f4mica, que s\u00f3 as fazem ver como improdutivas ou incapazes, aos olhos de quem n\u00e3o passa pela mesma insufici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas pessoas o que t\u00eam sempre, exibidas sob os mais variados tipos de precariedade, s\u00e3o faltas, car\u00eancias de toda materialidade, oportunidade, visibilidade, ajuda, resgate, enfim qualquer esp\u00e9cie de vantagem ou \u201csorte\u201d, coisas que quase sempre parecem estar sobrando aos da classe econ\u00f4mica situada na parte alta da pir\u00e2mide populacional do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei mesmo o que \u00e9 que determina essas posi\u00e7\u00f5es t\u00e3o diferentes e contrapostas; isto \u00e9, n\u00e3o consigo vislumbrar as raz\u00f5es de tanta pobreza de uns nem de tanta riqueza de outros. Desconfio que n\u00e3o se trata de merecimento divino ou humano. Sei que fam\u00edlias inteiras se mant\u00eam materialmente abastadas, enquanto que outras sempre sobreviveram materialmente pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se fosse um fatalismo, um determinismo das suas condi\u00e7\u00f5es primordiais, certas fam\u00edlias at\u00e9 parecem cultivar \u2013 como se isso representasse uma caracter\u00edstica positiva \u2013 sua posi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica <em>(incluo esses dois aspectos, dado que est\u00e3o sempre associados: nunca conheci um miser\u00e1vel prestigiado nem um opulento desdenhado) <\/em>durante toda a sua vida. Sei que isso de \u201ccultivar\u201d n\u00e3o \u00e9 verdadeiro do lado pobre \u2013 ningu\u00e9m cultiva plantas nocivas ou in\u00fateis.<\/p>\n\n\n\n<p>Sei que os estudiosos e especialistas consideram ou atribuem uma situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria atual a uma posi\u00e7\u00e3o igual ou semelhante no come\u00e7o da vida de seus ancestrais: por exemplo, existe uma probabilidade de que os filhos de escravos tamb\u00e9m sejam escravos, a menos que os abolicionistas os liberem. Essa condi\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o persiste nos dias de hoje, sendo at\u00e9 mesmo punida, quando constatada, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do que sucede com aqueles desafortunados que s\u00f3 encontrem trabalho em condi\u00e7\u00f5es similares a essas. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, parece que a cadeia de pobreza vai-se perpetuando por toda a fam\u00edlia e seus descendentes. Felizmente, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o raro assistir a indiv\u00edduos que nascem em ber\u00e7os carentes de qualquer vantagem econ\u00f4mica conseguirem resgatar suas fam\u00edlias \u2013 ascendentes ou descendentes \u2013 de uma situa\u00e7\u00e3o de pen\u00faria econ\u00f4mica, atrav\u00e9s da diversidade de of\u00edcios dispon\u00edveis num mercado \u00e0s vezes reservado, mas obrigado a render-se aos talentos demonstrados, como sucede com os jogadores de futebol e futebol americano, lutadores de box, cantores e at\u00e9 compositores.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos elencos de filmes e novelas, atuando como atores e atrizes, essa possibilidade nem sempre \u00e9 t\u00e3o aberta, e se deve \u00e0s vezes a uma \u201cm\u00e3ozinha\u201d de parentes dos que j\u00e1 foram escolhidos para trabalhar nesses meios, um pouco menos receptivos que os outros, mais populares e por isso um pouco mais acess\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez uma boa iniciativa dos governos, no sentido de tentar atingir a igualdade, haja sido mesmo a atribui\u00e7\u00e3o de quotas, nos trabalhos de teatro, cinema e novelas, assim como nas Universidades, dessas classes sociais e tipos raciais normalmente menos contemplados, cujo acesso seria quase completamente vedado, sem a aplica\u00e7\u00e3o desses sistemas. Nas Universidades, os filtros j\u00e1 t\u00eam que ser mais rigorosos, devido inclusive \u00e0 responsabilidade do Estado de entregar &#8211; em teoria &#8211; \u00e0 sociedade apenas aqueles indiv\u00edduos realmente prontos para desempenhar as atividades para as quais tiveram oportunidade de ser inseridos nos sistemas educacionais de alto n\u00edvel: n\u00e3o se pode colocar no mercado de trabalho m\u00e9dicos, economistas ou professores, engenheiros, arquitetos e outros profissionais que n\u00e3o tenham a devida prepara\u00e7\u00e3o, sem que isso acarretasse montanhas de grav\u00edssimos problemas no atendimento das popula\u00e7\u00f5es. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 mais dif\u00edcil que a classe de mais posses materiais perca sua situa\u00e7\u00e3o da noite para o dia, a n\u00e3o ser que sofra reveses persistentes nessa condi\u00e7\u00e3o, coisa que ou n\u00e3o \u00e9 muito prov\u00e1vel ou dificilmente acontece. Mesmo porque, de algum modo, podem contar com a prote\u00e7\u00e3o ou dos parentes da mesma classe ou t\u00eam outras estrat\u00e9gias de preserva\u00e7\u00e3o da fortuna, que em muitos casos s\u00f3 faz crescer, devido \u00e0s suas possibilidades de arriscar <em>(e, muitas vezes, ganhar)<\/em>, ao que aqueles outros nem de longe se podem atrever. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro caso &#8211; o dos desvalidos &#8211; n\u00e3o podemos negar tamb\u00e9m que certa influ\u00eancia de alguma defesa aqui, uma prote\u00e7\u00e3o acol\u00e1, produza algum efeito no sentido de constituir uma ajuda a esses desfavorecidos pela fortuna, esperando e acreditando no prov\u00e9rbio que diz: \u201c\u00e1gua mole em pedra dura tanto bate at\u00e9 que fura\u201d!<\/p>\n\n\n\n<p>Essas opini\u00f5es n\u00e3o pretendem apresentar nenhuma panaceia, nem mesmo um paliativo para solucionar as condi\u00e7\u00f5es da pobreza no pa\u00eds; s\u00e3o apenas uma forma de bradar contra as injusti\u00e7as sociais \u2013 sem mesmo ser preciso \u2013 um protesto contra um problema que incomoda e machuca, se perpetua e at\u00e9 se agrava. \u00c9 muito prov\u00e1vel ser certa essa hist\u00f3ria de que \u201cos ricos est\u00e3o cada vez mais ricos, enquanto que os pobres ficam cada vez mais pobres\u201d. Triste verdade, que permite que, nascidos na mesma p\u00e1tria, filhos deste mesmo solo, tenham situa\u00e7\u00f5es t\u00e3o desiguais que cada vez mais aumentam o fosso existente, sem que a gente possa fazer muito para reduzi-lo! &nbsp;Uma esp\u00e9cie de choro silencioso!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez eu at\u00e9 pare\u00e7a (ou essa minha \u00eanfase excessiva seja mesmo) demasiado repetitiva, nos meus protestos contra qualquer tipo de discrimina\u00e7\u00e3o ou preconceito, como aquele contra a ra\u00e7a negra, contra a homofobia, contra os pobres, contra os nordestinos &#8211; tamb\u00e9m do Brasil \u2013 por parte dos sulistas brasileiros, mas \u00e9 que me indignam todas essas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/284"}],"collection":[{"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=284"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/284\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":769,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/284\/revisions\/769"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=284"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=284"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=284"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}