{"id":349,"date":"2024-01-16T15:21:44","date_gmt":"2024-01-16T18:21:44","guid":{"rendered":"https:\/\/ipsislitteris.com\/?p=349"},"modified":"2024-04-15T18:31:33","modified_gmt":"2024-04-15T21:31:33","slug":"racismo-regional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/2024\/01\/16\/racismo-regional\/","title":{"rendered":"Racismo regional"},"content":{"rendered":"\n<p>Este \u00e9 outro artigo escrito pelo meu irm\u00e3o, que &#8211; al\u00e9m de ter gra\u00e7a &#8211; tem sensibilidade para perceber quando as pessoas querem machuc\u00e1-lo, diminu\u00ed-lo sem raz\u00e3o &#8211; porque ele \u00e9 tamb\u00e9m muito competente na sua profiss\u00e3o de engenheiro. Quando isso acontece, ele n\u00e3o se deixa ser pisado, como eu tamb\u00e9m!<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um epis\u00f3dio que lhe aconteceu num curso em S\u00e3o Paulo (<em>voc\u00eas j\u00e1 devem saber que ele \u00e9 nordestino, como eu<\/em>). Agora, deixo-o com a palavra, para narrar como o fato sucedeu.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;La\u00eds,<br>Li seu post sobre racismo. Encontrei ali um caso de \u201cracismo<br>racial\u201d ocorrido no Rio Grande do Sul e uma refer\u00eancia ao \u201cracismo<br>regional\u201d muito comum no Brasil. Este segundo conceito, trouxe-me<br>\u00e0 lembran\u00e7a um fato ocorrido quando fiz um curso em S\u00e3o Paulo,<br>frequentado tamb\u00e9m por sulistas, um dos quais orgulhoso professor<br>de uma famosa Universidade do Rio Grande do Sul. Lembro que fui<br>por ele discriminado (\u201cracismo regional\u201d). N\u00e3o funcionou muito bem<br>para ele, mas, assim mesmo, dei-lhe o troco. Usei, para isso, de<br>um certo preconceito-revide (falso, como todo preconceito) que<br>circula nas galhofas do resto do Brasil a respeito da macheza<br>daquela regi\u00e3o (agu\u00e7ado agora pelo fato de o Governador eleito do<br>RS ser assumidamente gay):<br>Racismo Regional<br>O curso era de Eletr\u00f4nica Digital. Eu achei que, embora engenheiro<br>eletr\u00f4nico, eu precisava fazer esse curso porque, na minha \u00e9poca<br>de Escola de Engenharia a eletr\u00f4nica n\u00e3o era ainda t\u00e3o digital<br>como passou a ser em 1971, ano em me formei e ano em que foram<br>inventados os microprocessadores, o que mudou toda a Engenharia<br>Eletr\u00f4nica (quase jogando fora tudo que aprendi na Escola). Na<br>\u00e9poca do curso, eu j\u00e1 havia aprendido um bocado e estava<br>desenvolvendo coisas aqui em Pernambuco usando microprocessadores<br>(dentre os mais avan\u00e7ados daquela \u00e9poca) na malfadada<br>Intertecnica, o que era inimagin\u00e1vel para um orgulhoso professor<br>Ga\u00facho.<br>Um belo dia, nas rodas de conversa, antes da aula, para n\u00e3o<br>parecer diminu\u00eddo por estar aluno de um curso (b\u00e1sico) de<br>Eletr\u00f4nica Digital, o aluno-professor comentava:<br>-Deste curso, o que me interessa \u00e9 s\u00f3 a parte de<br>microprocessadores.<br>Dando a entender que j\u00e1 sabia, como professor que era, de toda a<br>parte b\u00e1sica de Digital.<br>Eu, ent\u00e3o, comentei com ele:<br>-Acho que neste curso n\u00e3o vamos ver microprocessadores.<br>O coment\u00e1rio lhe entrou por um ouvido e saiu pelo outro pois ele<br>continuou a falar para a plateia, como se eu nem estivesse ali:<br>-Estou interessado mesmo \u00e9 em literatura sobre microprocessadores.<br>Eu j\u00e1 tinha estudado um bocado sobre o assunto, trabalhava com<br>microprocessadores e conhecia um bom livro. Comentei ent\u00e3o:<br>-Existe um livro muito bom, do mesmo autor do livro de Eletr\u00f4nica<br>Digital que este curso nos forneceu.<br>Desta vez, o \u201cracismo regional\u201d n\u00e3o fez a frase lhe entrar por um<br>ouvido e sair pelo outro pois ele reagiu rispidamente, aborrecido<br>com aquele ignorante nordestino que ousava verborragizar-lhe algum<br>conhecimento.<br>-N\u00e3o me interessa informa\u00e7\u00e3o desses livros! Quero algo mais<br>profundo, direto.<br>Ao que eu lhe respondi:<br>-Algo mais direto voc\u00ea s\u00f3 vai encontrar em manuais de fabricantes.<br>Nesse instante entrou o professor do curso, interrompendo a<br>conversa. O Ga\u00facho ent\u00e3o lhe dirigiu de imediato a pergunta:<br>-Professor, quando vamos come\u00e7ar a estudar microprocessadores?<br>Ao que o professor respondeu:<br>-N\u00e3o vamos. Neste curso n\u00e3o vamos ver microprocessadores.<br>Meio desapontado com a confirma\u00e7\u00e3o da suspeita que eu j\u00e1 lhe havia<br>externado, o professor-aluno Ga\u00facho continuou:<\/p>\n\n\n\n<p>E onde eu encontro boa literatura a respeito?<br>-Existe um livro muito bom, do mesmo autor desse livro de<br>Eletr\u00f4nica Digital que nosso curso lhe forneceu. Respondeu de<br>bate-pronto o professor<br>(parecia at\u00e9 ter ouvido nossa conversa \u2013 n\u00e3o tinha ouvido!).<br>O Ga\u00facho ent\u00e3o reagiu:<br>-N\u00e3o! Eu n\u00e3o queria informa\u00e7\u00e3o de livro. Queria algo mais<br>detalhado, mais direto.<br>A resposta do professor foi imediata:<br>-Algo mais detalhado, mais direto, voc\u00ea s\u00f3 vai encontrar em manuais de fabricantes. (Bingo!)<\/p>\n\n\n\n<p>(O \u201cracismo regional\u201d flopou!)<\/p>\n\n\n\n<p> <strong>O troco<\/strong> (\u201cpreconceito-revide<strong>\u201d ou <\/strong>\u201cracismo-reverso\u201d)<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns dias depois, est\u00e1vamos todos na p\u00e2ndega do intervalo do cafezinho. Dizia, bem alto, o Ga\u00facho a respeito do caf\u00e9 quent\u00edssimo servido em copinhos de pl\u00e1stico:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211;<strong> Que caf\u00e9 mais quent<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>, tch\u00ea! Acaba com <\/strong><strong>dois ter\u00e7os<\/strong><strong> da virilidade<\/strong><strong> da gent<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Falava em tom de chiste, com seu forte sotaque ga\u00facho. E explicava ao seu p\u00fablico curioso:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Queima os dedos e a l\u00edngua!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cracismo-reverso\u201d de repente envenenou meu c\u00e9rebro e minha l\u00edngua lhe soltou o troco:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Cuidado! Se <\/strong><strong>voc\u00ea <\/strong><strong>soltar um pum<\/strong><strong>, vai embora <\/strong><strong>o resto<\/strong><strong>!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>(Aqui, estou usando um eufemismo em respeito a susceptibilidades mais agu\u00e7adas, mas l\u00e1, na hora, usei mesmo foi a palavra chula \u201cp**dar\u201d em lugar de \u201csoltar um pum\u201d)<\/p>\n\n\n\n<p>Desta vez, <em>todos<\/em> me ouviram.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem precisei explicar <em>o qu<\/em><em>\u00ea<\/em> lhe queimaria.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 ele (meio constrangido) n\u00e3o caiu na gargalhada!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p>(Bingo!: <em>\u201cracismo reverso\u201d<\/em>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este \u00e9 outro artigo escrito pelo meu irm\u00e3o, que &#8211; al\u00e9m de ter gra\u00e7a &#8211; tem sensibilidade para perceber quando as pessoas querem machuc\u00e1-lo, diminu\u00ed-lo sem raz\u00e3o &#8211; porque ele \u00e9 tamb\u00e9m muito competente na sua profiss\u00e3o de engenheiro. 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