{"id":594,"date":"2024-10-02T20:47:01","date_gmt":"2024-10-02T23:47:01","guid":{"rendered":"https:\/\/ipsislitteris.com\/?p=594"},"modified":"2025-03-07T17:03:15","modified_gmt":"2025-03-07T20:03:15","slug":"a-forca-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/2024\/10\/02\/a-forca-das-mulheres\/","title":{"rendered":"A FOR\u00c7A DAS MULHERES"},"content":{"rendered":"\n<p>Num momento hist\u00f3rico em que a prote\u00e7\u00e3o e respeito \u00e0 mulher est\u00e3o muito presentes nas preocupa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais de todo o planeta, \u00e9 oportuno falar de uma hist\u00f3ria \u2013 por poucos conhecida \u2013 de uma mulher que chegou a ser rainha de outro pa\u00eds que n\u00e3o o seu e a influenciar a cultura e a vida de uma na\u00e7\u00e3o considerada por todos muito mais poderosa do que o seu pequeno Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Estou falando de CATARINA HENRIQUETA DE PORTUGAL&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Catarina Henriqueta de Bragan\u00e7a foi Rainha consorte do Reino da Inglaterra, da Esc\u00f3cia e da Irlanda (1662 a 1685), como esposa do Rei Carlos II.<\/p>\n\n\n\n<p>A Infanta Catarina nasceu em 1638, em Vila Vi\u00e7osa, Portugal, e era filha do rei D. Jo\u00e3o IV, o Restaurador, e de Lu\u00edsa de Gusm\u00e3o; seu irm\u00e3o D. Afonso VI tamb\u00e9m foi rei daquele pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela era membro da casa de Bragan\u00e7a, a mais nobre casa de Portugal, que se tornou casa real, depois que Jo\u00e3o, seu pai, foi proclamado rei como Jo\u00e3o IV, ap\u00f3s a deposi\u00e7\u00e3o da Casa de Habsburgo. Por contrato nupcial declarado por sua m\u00e3e &#8211; a rainha regente D. Lu\u00edsa de Gusm\u00e3o, j\u00e1 ent\u00e3o vi\u00fava de D. Jo\u00e3o IV &#8211; Catarina casou-se em 1662 com o Rei Carlos II da Inglaterra, com quem viveu at\u00e9 1685. N\u00e3o foi uma rainha popular na Inglaterra, pois n\u00e3o teve descend\u00eancia, e era cat\u00f3lica (<em>quando a religi\u00e3o da monarquia inglesa era anglicana<\/em>) \u2013 o que a impediu de ser coroada.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi uma infanta nascida e criada no seio de uma fam\u00edlia ilustrada e culta; educada nos costumes e h\u00e1bitos tradicionais portugueses, com toda a raz\u00e3o exerceria uma forte influ\u00eancia na na\u00e7\u00e3o inglesa que, apesar da fina educa\u00e7\u00e3o e cultura da dama portuguesa, n\u00e3o a acolheu muito bem, tendo ela sempre sido hostilizada por ser diferente. Entretanto, ela nunca desistiu da sua forma de ser e teve um papel important\u00edssimo na moderniza\u00e7\u00e3o da Inglaterra e na altera\u00e7\u00e3o da filosofia de vida dos ingleses, que &#8211; contrariamente ao que alguns escritores e cineastas procuram fazer crer &#8211; era uma na\u00e7\u00e3o rude e atrasada em rela\u00e7\u00e3o ao resto da Europa. Entre muitos h\u00e1bitos e pr\u00e1ticas que ela levou para a Inglaterra, Catarina foi respons\u00e1vel pelo h\u00e1bito que veio para ficar &#8211; <strong>a introdu\u00e7\u00e3o do ch\u00e1 naquele pa\u00eds<\/strong>, fazendo com que aqueles que a criticavam passassem, em breve, a imit\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O ch\u00e1, natural da China, foi introduzido na Europa pelos portugueses, no s\u00e9culo XVI. Assim, foi um h\u00e1bito que Catarina levou de casa e continuou na Inglaterra, onde organizava reuni\u00f5es de senhoras, no meio da tarde, momento em que bebiam a elegante e famosa infus\u00e3o. Apesar de o ch\u00e1 j\u00e1 existir na Inglaterra, propagado pelos holandeses \u2013 que o comerciavam como cura para tudo &#8211; foi a rainha portuguesa quem o transformou na \u201cinstitui\u00e7\u00e3o\u201d que os ingleses adotaram e hoje conhecem como \u201cch\u00e1 das cinco\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A rainha tamb\u00e9m introduziu <strong>o consumo da geleia de laranja<\/strong> (<em>adorava laranjas, que sua m\u00e3e lhe enviava constantemente de Portugal<\/em>). <em>[Eu nem sabia que tinha um gosto t\u00e3o &#8220;real&#8221; (da realeza), t\u00e3o aristocr\u00e1tico! Adoro geleia de laranja amarga!]<\/em>). O uso dessa iguaria, que os ingleses designam erroneamente \u201cmarmelade\u201d (<em>usando o termo portugu\u00eas marmelada)<\/em>; a marmelada portuguesa j\u00e1 tinha antes sido introduzida no Reino Unido, e foi levado \u00e0 Inglaterra pela Infanta portuguesa. Catarina tinha o costume de fazer compotas dessa fruta, guardando as de laranjas doces para ela e suas amigas e damas de companhia, e reservando as de laranjas amargas para as inimigas, sobretudo as concubinas reais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Mas, a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o cultural que a nova rainha da Inglaterra fez na corte inglesa foi <strong>a introdu\u00e7\u00e3o do uso dos talheres<\/strong>, pois at\u00e9 ent\u00e3o, os ingleses, mesmo a realeza e a aristocracia mais fina, comiam com as m\u00e3os, levando os alimentos \u00e0 boca com tr\u00eas dedos (<em>polegar, indicador e m\u00e9dio<\/em>) da m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O garfo j\u00e1 era conhecido, mas s\u00f3 para trinchar ou servir a comida, por\u00e9m na Corte portuguesa Catarina j\u00e1 estava habituada a utiliz\u00e1-lo para levar os alimentos \u00e0 boca, e em breve todos come\u00e7aram a seguir o exemplo da nova rainha da Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela tamb\u00e9m <strong>introduziu na Inglaterra o tabaco<\/strong>, e dentro de pouco tempo todos os ingleses levavam sua caixinha de rap\u00e9 no bolso do colete.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal, o uso era <strong>comer em<\/strong> <strong>pratos de porcelana<\/strong>, muito mais higi\u00eanicos do que os pratos de ouro ou de prata usados na Inglaterra para esse fim; com a Infanta, os ingleses aprenderam a utilizar a lou\u00e7a de porcelana (<em>\u201cfine china\u201d<\/em>), que logo se generalizou.<\/p>\n\n\n\n<p>Era um costume da Corte Portuguesa a realiza\u00e7\u00e3o de saraus, reuni\u00f5es liter\u00e1rias ou musicais, em que se ouvia \u00f3pera; a rainha levava em seu s\u00e9quito uma orquestra de m\u00fasicos portugueses, ent\u00e3o <strong>foi assim que se ouviu a primeira \u00f3pera na Inglaterra<\/strong>, outro legado cultural deixado pela infanta portuguesa aos ingleses.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela influiu at\u00e9 na maneira de vestir das inglesas, escandalizando a corte inglesa por <strong>usar saias que mostravam os p\u00e9s<\/strong>, o que se considerava de mau gosto (<em>diz-se que devido ao grande tamanho dos p\u00e9s das inglesas, comparados com os pezinhos da infanta portuguesa<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, <strong>o dote de Dona Catarina compreendia uma exorbitante quantidade de dinheiro, e inclu\u00eda a cidade de T\u00e2nger, na \u00c1frica, e a ilha de Bombaim, na \u00cdndia. <\/strong>Com isso, depois de receber a estrat\u00e9gica Bombaim dos portugueses, o rei ingl\u00eas Carlos II autorizou \u00e0 Companhia das \u00cdndias Orientais a aquisi\u00e7\u00e3o de mais territ\u00f3rios, nascendo assim o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas obras portuguesas e estrangeiras sobre a vida da Infanta Catarina fazem refer\u00eancia \u00e0s desconsidera\u00e7\u00f5es que ela sofreu do marido, devido ao fato de este manter diversas concubinas, o que com certeza a incomodava e entristecia. Diz-se, por\u00e9m, que com o tempo ela adquiriu uma sabedoria muito especial para lidar com a situa\u00e7\u00e3o. Alguns bi\u00f3grafos lembram como justificativa que assim eram os usos da \u00e9poca, e que \u201camor no casamento de monarcas e imperadores era um luxo &#8211; quase sempre, as rainhas deveriam aceitar essa situa\u00e7\u00e3o como normal. Mas, a informa\u00e7\u00e3o que se tem \u00e9 de que ela era uma mulher muito influente na corte inglesa e no sucesso do marido \u00e0 frente do governo daquele pa\u00eds. Dizem, inclusive, que o rei, por diversas vezes, foi instado (<em>por amigos ou pela fam\u00edlia<\/em>) a divorciar-se dela, mas ele nunca o fez, afirmando que n\u00e3o tinha motivos para dar esse passo, deixando isto a impress\u00e3o de que, \u00e0 sua maneira, ele amou a sua rainha.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, j\u00e1 vi\u00fava, ela voltou a Portugal, foi recebida com manifesta\u00e7\u00f5es de carinho e alegria, tanto pelos portugueses quanto pela comunidade inglesa. Na Inglaterra, ela teve em sua despedida todas as honras prestadas a uma rainha e trouxe, no seu s\u00e9quito, ingleses que permaneceram por v\u00e1rios anos em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>A popularidade da rainha chegou at\u00e9 aos Estados Unidos, onde o bairro Queens, de Nova York, recebeu esse nome em sua homenagem. Esse parece ser um dos tributos rendidos pela Inglaterra &#8211; na principal de suas col\u00f4nias &#8211; \u00e0 rainha portuguesa que eles mesmos, no princ\u00edpio, rejeitaram. Em 1988, a associa\u00e7\u00e3o \u201c<em>Friends of Queen Catherina<\/em>\u201d fez uma arrecada\u00e7\u00e3o de fundos para erigir uma est\u00e1tua da infanta.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda essa hist\u00f3ria de vida nos ensina que, apesar da cultura reinante no mundo inteiro, v\u00e1rios s\u00e9culos atr\u00e1s, o g\u00eanero feminino tem-se destacado atrav\u00e9s de mulheres como Catarina Henriqueta, que, com uma firme personalidade, conseguiu imprimir sua presen\u00e7a at\u00e9 os dias de hoje em uma sociedade que n\u00e3o soube aceitar imediatamente as diferen\u00e7as, mostrando uma clara rejei\u00e7\u00e3o por ela, mas que terminou rendendo-se \u00e0 impon\u00eancia da sua figura influente de jovem mulher e rainha.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa hist\u00f3ria tamb\u00e9m nos lembra que hoje, como sucede em toda a humanidade, at\u00e9 mesmo entre os pa\u00edses existe certa hierarquia ou divis\u00e3o em classes, sendo alguns considerados \u201cde primeiro mundo\u201d ou at\u00e9 \u201cterceiro\u201d, como sucede com as nossas na\u00e7\u00f5es latino-americanas. Assim, os conceitos adotados no mundo s\u00e3o diferentes para categorizar seus pa\u00edses, talvez tendo em conta apenas o crit\u00e9rio da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para classificar as na\u00e7\u00f5es em \u201cricas\u201d, \u201cdesenvolvidas\u201d, \u201cem vias de desenvolvimento\u201d, \u201cpobres\u201d, ou \u201cinfluentes\u201d, \u201cpoderosas\u201d, \u201ccarentes\u201d e outros adjetivos.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo inteiro, \u00e9 sabido que a Inglaterra pertence \u00e0s categorias mais elevadas dos pa\u00edses da Europa, enquanto que Portugal faz parte de uma classifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00e3o elevada, apesar de estar situada no mesmo continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem entrar aqui no m\u00e9rito das atividades desse \u00faltimo pa\u00eds como ber\u00e7o de excelentes navegadores e conquistadores de grandes territ\u00f3rios repletos de riquezas e belezas naturais, nem da hospitalidade dos portugueses e do seu povo, da especialidade de sua culin\u00e1ria, tanto salgada quanto doce (<em>estas herdadas pelo nosso pa\u00eds \u2013 o Brasil<\/em>), e bel\u00edssimo artesanato \u2013 do qual os bordados da Ilha da Madeira s\u00e3o um exemplo e heran\u00e7a &#8211; estamos falando dos belos bordados artesanais, praticados pelas bordadeiras do Nordeste do Brasil, principalmente nos estados de Pernambuco e Cear\u00e1 &#8211; quisemos aqui mencionar alguns fatos curiosos relacionados com Portugal e Inglaterra, os quais mostram que n\u00e3o poucas vezes os pa\u00edses menos poderosos tiveram a oportunidade de imprimir nos adiantados a marca indel\u00e9vel de seus costumes, do que pouca gente tem conhecimento. A hist\u00f3ria dessa mulher, que introduziu os bons h\u00e1bitos de alimenta\u00e7\u00e3o e cultura, trazidos de sua p\u00e1tria e desconhecidos pelos ingleses at\u00e9 ent\u00e3o, havendo ela exercido uma forte influ\u00eancia na Inglaterra, derruba certos mitos de poder e cultura, quase sempre atribu\u00eddos apenas aos pa\u00edses ditos ricos, e serve, por outro lado, para exaltar a capacidade de muitas mulheres em influenciar a vida e o sucesso de seus homens, sejam nobres ou plebeus, ricos ou pobres, importantes ou an\u00f4nimos, guerreiros ou pac\u00edficos. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num momento hist\u00f3rico em que a prote\u00e7\u00e3o e respeito \u00e0 mulher est\u00e3o muito presentes nas preocupa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais de todo o planeta, \u00e9 oportuno falar de uma hist\u00f3ria \u2013 por poucos conhecida \u2013 de uma mulher que chegou a ser rainha de outro pa\u00eds que n\u00e3o o seu e a influenciar a cultura e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/594"}],"collection":[{"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=594"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/594\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":675,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/594\/revisions\/675"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=594"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=594"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=594"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}