{"id":67,"date":"2023-08-19T20:16:09","date_gmt":"2023-08-19T23:16:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ipsislitteris.com\/?p=67"},"modified":"2024-04-16T16:11:19","modified_gmt":"2024-04-16T19:11:19","slug":"minha-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/2023\/08\/19\/minha-mae\/","title":{"rendered":"Minha m\u00e3e"},"content":{"rendered":"\n<p>Minha m\u00e3e foi uma das pessoas mais equilibradas que eu j\u00e1 conheci na vida: era inteligente, preparada, trabalhava e cuidava da casa e dos filhos (<em>somos 4<\/em>; <em>isto \u00e9, depois da perda do meu irm\u00e3o, somos apenas 3<\/em>). Conheci v\u00e1rios trabalhos dela (<em>entre os quais, alguns empregos<\/em>): como professora prim\u00e1ria, na Escola Modelo, onde tamb\u00e9m foi diretora, lutando com crian\u00e7as; como revisora, na Imprensa Oficial, lidando com a revis\u00e3o do Di\u00e1rio Oficial de Teresina; no Arquivo P\u00fablico da cidade, onde n\u00e3o sei bem o que fazia; na Procuradoria do Dom\u00ednio do Estado, acho que lidando com processos de terras devolutas do Estado (<em>ela era advogada<\/em>). Desempenhava muito bem e com muita bravura todas essas atividades, pois era bem preparada, falava e escrevia muito bem (<em>da\u00ed a facilidade de todos os filhos em falarem corretamente e escreverem sem erros<\/em>). N\u00e3o me lembro de todos os seus chefes, s\u00f3 recordo alguns, como o Paulo Nunes, Omar dos Santos Rocha e o seu irm\u00e3o Antonio, e Jos\u00e9 Louren\u00e7o Mour\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s mor\u00e1vamos em Teresina, e ela estudou na Faculdade de Direito do Piau\u00ed, tendo sido, nesse ano e at\u00e9 ent\u00e3o, a primeira e \u00fanica mulher graduada, entre v\u00e1rios homens. Muitos anos depois, ela recebeu uma homenagem na Faculdade de Direito do Piau\u00ed, por essa fa\u00e7anha. Para a sua \u00e9poca, isso foi mesmo uma fa\u00e7anha!<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dessas atividades de bom n\u00edvel, ela desempenhou tamb\u00e9m, sempre que foi necess\u00e1rio, trabalhos de \u201cpouca relev\u00e2ncia\u201d social, como confeccionando flores artificiais, de tecido, e como costureira, para ajudar na renda da fam\u00edlia, fazendo vestidos para senhoras da classe m\u00e9dia alta, como a Maria L\u00eddia Freitas, Lila Lago, Ang\u00e9lica Martins, Mirtes Dantas, al\u00e9m de outras, que se tornaram muito amigas suas, e n\u00e3o s\u00f3 clientes. Com essa situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o t\u00e3o f\u00e1cil, era de esperar que ela vivesse reclamando da vida e das condi\u00e7\u00f5es em que viv\u00edamos, mas isso nunca aconteceu. Nossa casa era bem modesta (<em>simples, alugada<\/em>), mas muito bem frequentada; n\u00f3s (<em>todos os filhos<\/em>) estud\u00e1vamos nos melhores col\u00e9gios da cidade (<em>Escola Modelo, Col\u00e9gio Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, Liceu Piauiense<\/em>), e t\u00ednhamos bons amigos e conhecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha irm\u00e3 e eu and\u00e1vamos muito bem vestidas (<em>a minha m\u00e3e costurava as nossas roupas, que eram sempre de tecidos finos e de boa qualidade: organdi su\u00ed\u00e7o, linho, cambraia de linho, nylon americano, cambraia bordada, mas tamb\u00e9m de algod\u00e3o fino, tipo popeline, seda, voile e outras cujos nomes nem me lembro mais. Como n\u00e3o tinha que pagar pela confec\u00e7\u00e3o da nossa roupa, comprava bons tecidos, ela justificava<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Como pr\u00eamio por ser o melhor aluno da s\u00e9rie no Liceu, e com algum esfor\u00e7o da parte dela e do meu pai, meu irm\u00e3o maior, o Annibal, foi estudar no Col\u00e9gio Pedro II, no Rio de Janeiro, que era e ainda hoje \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 a melhor escola p\u00fablica, mas tamb\u00e9m o melhor col\u00e9gio do Brasil, em termos de qualidade do ensino. O que aconteceu foi que ele, quando estava estudando o primeiro ano do curso ginasial no Liceu, ganhou uma bolsa de estudos para ir estudar no Pedro II, como pr\u00eamio ao seu desempenho escolar nesse col\u00e9gio. A mam\u00e3e n\u00e3o s\u00f3 o acompanhou na viagem at\u00e9 o Rio, mas tamb\u00e9m arrumou para ele um enxoval, como se ele fosse se casar: fez pijamas, comprou meias, cuecas, e nem me lembro mais o que (<em>penso que ele n\u00e3o deveria ter boas roupas antes<\/em>). Al\u00e9m disso, meus pais tamb\u00e9m lhe mandavam certa quantia para ajudar nas despesas dele, no Rio, pois ele ainda n\u00e3o trabalhava (<em>tinha 12 anos, quando chegou l\u00e1<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo aconteceu comigo, quando terminei o cient\u00edfico no Liceu (<em>s\u00f3 que eu j\u00e1 tinha 18<\/em>), e pude concretizar o que eu estou certa de que representou um grande esfor\u00e7o econ\u00f4mico da parte dos meus pais: fui estudar na Faculdade de Filosofia da Universidade do Cear\u00e1, visto que em Teresina n\u00e3o havia ainda a faculdade que eu queria cursar: Letras. Ela tamb\u00e9m me acompanhou a Fortaleza, para conseguir um alojamento para mim, e a\u00ed eles me mantiveram durante 4 anos, pagando a Faculdade, alojamento num pensionato, pagando livros, e transporte p\u00fablico. Acho que foi uma situa\u00e7\u00e3o um pouco apertada para eles (<em>da minha parte, eu cumpri com a responsabilidade que me cabia: nunca deixei de pagar as despesas relativas a meus estudos e estudei at\u00e9 terminar o curso completo<\/em>). Sinto que eles estavam muito orgulhosos de mim, do meu sucesso acad\u00eamico, pessoal etc. Acho que com meus dois irm\u00e3os menores, Nelma e Francisco, as coisas j\u00e1 foram diferentes: eles estudaram j\u00e1 por sua conta, sem contarem tanto com a ajuda econ\u00f4mica dos meus pais. Tenho ideia de que o meu irm\u00e3o Chico tamb\u00e9m ganhou bolsa, aos 12 anos, para estudar no Pedro II, mas nem me lembro t\u00e3o bem disso. S\u00f3 sei que quase todos se graduaram: eu, em Letras, minha irm\u00e3, em Direito, e o Chico, em Engenharia. S\u00f3 o Annibal n\u00e3o terminou a faculdade em que estudou inicialmente.<\/p>\n\n\n\n<p>De regresso a Teresina, eu encontrei trabalho, como professora de portugu\u00eas, no Col\u00e9gio Batista, acho que a convite de uma afilhada dos meus pais. Tamb\u00e9m, consegui aulas de portugu\u00eas no col\u00e9gio onde havia estudado antes, como resultado de ter ido conversar com uma das freiras de l\u00e1, que imediatamente me deu dois grupos de alunas.&nbsp; Depois, acho que, na tentativa de conseguir para mim um trabalho mais bem remunerado, minha m\u00e3e \u2013 que nessa \u00e9poca trabalhava na Procuradoria do Dom\u00ednio do Estado, ao ter conhecimento de que a Sudene estava fazendo concurso a fim de conseguir uma pessoa para trabalhar como Secret\u00e1ria do Diretor, telefonou para mim (<em>ligou do trabalho dela para uma vizinha que tinha telefone \u2013 n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos &#8211; e era uma pessoa muito am\u00e1vel, que logo me mandou chamar<\/em>). A\u00ed, falei com a minha m\u00e3e, me informei onde era a Sudene, a hora do concurso, e fui, a p\u00e9, tendo sido aprovada e conquistado o \u00fanico lugar dispon\u00edvel (<em>o concurso era neste mesmo dia, e s\u00f3 havia uma vaga<\/em>). Foi uma porta maravilhosa que se abriu para mim, pois pagavam bem, e a\u00ed trabalhei durante mais de 20 anos da minha vida, tamb\u00e9m gra\u00e7as \u00e0 iniciativa e destemor da minha m\u00e3e, que confiava em mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse trabalho, que eu conquistei com a ajuda dela, foi como um trampolim para o resto da minha vida (<em>a\u00ed, conheci meu primeiro marido, o que me deu a possibilidade de ir trabalhar em Recife, onde depois eu me separei dele; nessa cidade, fiz concurso interno na institui\u00e7\u00e3o em que trabalhava e, sendo aprovada, desempenhei fun\u00e7\u00f5es de n\u00edvel universit\u00e1rio, o que me ensejou ter um sal\u00e1rio mais alto, e poder substituir eventualmente, entre outros, o diretor do Departamento de Recursos Humanos).<\/em> J\u00e1 algum tempo depois de v\u00e1rios anos de trabalhar nessa institui\u00e7\u00e3o, tive a oportunidade de realizar dois cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e um semin\u00e1rio internacional, no M\u00e9xico, que foi onde eu conheci o amor da minha vida (<em>meu segundo marido<\/em>), com quem depois constru\u00ed uma vida cheia de alegria e de oportunidades para as minhas filhas e o meu filho <em>(que \u00e9 dele tamb\u00e9m)<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha m\u00e3e era uma pessoa muito modesta: n\u00e3o tinha sapatos nem roupas elegantes, apesar de saber costurar muito bem; acho que ela preferia que as filhas andassem bem vestidas, para poderem apresentar-se em qualquer lugar sempre alinhadas. A sua preocupa\u00e7\u00e3o era muito maior com as duas filhas (<em>minha irm\u00e3 e eu<\/em>) do que com ela mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar desse cuidado especial que ela dispensava \u00e0 minha irm\u00e3 e a mim, os outros  dois filhos eram tamb\u00e9m cuidados e educados, bem alimentados e tratados com carinho. Ela incentivava todos a estudarem, a comportar-se bem, sem nunca ter uma palavra de desprezo ou de cr\u00edtica ou diminui\u00e7\u00e3o para conosco; ao contr\u00e1rio, ela sempre tinha para todos n\u00f3s uma palavra de est\u00edmulo e elogio. Isso \u00e9 muito importante quando acontece da parte dos pais, pois os filhos ficam com uma ideia positiva sobre eles mesmos, uma autoconfian\u00e7a desenvolvida e uma autoestima elevada, como penso que foi o nosso caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, antes de terminar essa \u201codisseia\u201d sobre a minha m\u00e3e, e os seus impulsos favor\u00e1veis para a minha vida, eu queria dizer que n\u00e3o posso deixar de reconhecer o papel da minha av\u00f3, e de render-lhe gra\u00e7as tamb\u00e9m, por ter iniciado este longo caminho que eu tenho percorrido, com conquistas e vit\u00f3rias. Ela criou a minha m\u00e3e praticamente sozinha: quando meu av\u00f4 morreu, minha m\u00e3e tinha apenas 7 anos de idade; da\u00ed em diante, tudo ficou por conta da minha av\u00f3, que foi quem teve a iniciativa de trabalhar como desesperada para cri\u00e1-la sozinha, e prepar\u00e1-la com uma boa educa\u00e7\u00e3o, estudando em bons col\u00e9gios, e para que a sua filha \u00fanica pudesse depois cursar uma faculdade (<em>ali\u00e1s, eu nem sei bem se essa escolha foi da minha av\u00f3, ou se partiu mesmo da minha m\u00e3e<\/em>), tivesse desenvolvido as oportunidades que a fizeram crescer na vida e que fizeram dela a mulher ousada e destemida que sempre foi, e dar um exemplo de valor e coragem a todos os seus filhos: meus irm\u00e3os e eu. Atribuo essa \u201cra\u00e7a\u201d a essas duas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha m\u00e3e era uma mulher forte, apesar da sua complei\u00e7\u00e3o mi\u00fada. Estimulou todos os filhos a estudarem, e com isso n\u00e3o me refiro s\u00f3 aos estudos mais b\u00e1sicos, para os quais tinha muito cuidado com a gente. Tamb\u00e9m estimulou todos a estudarem um curso universit\u00e1rio, como ela havia estudado, embora isso pudesse termos seguido s\u00f3 com o seu exemplo, e n\u00e3o nos obrigando ou \u201cempurrando\u201d no sentido de termos uma carreira profissional. Era uma coisa muito natural para n\u00f3s procurarmos estudar, decidindo por n\u00f3s mesmos a faculdade que quer\u00edamos cursar. Comigo, at\u00e9 mesmo no n\u00edvel universit\u00e1rio, ela desempenhou um papel muito importante. N\u00e3o que tenha decidido o que eu ia estudar, em que universidade, nem o que ia cursar. Essas foram decis\u00f5es e escolhas minhas, mas tenho que reconhecer que sempre tive o seu apoio e est\u00edmulo, inclusive com a sua presen\u00e7a f\u00edsica, como j\u00e1 fiz refer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Que sorte \u00e9 ter nascido com uma mentalidade (<em>ou ser\u00e1 que isso \u00e9 adquirido?<\/em>) confiante, como era a da minha m\u00e3e! E ter conseguido transmitir isso a todos os seus filhos! Isso \u00e9 felicidade, e n\u00e3o o fato de contar com toneladas de coisas materiais in\u00fateis, que protegem o corpo, sim, mas n\u00e3o alimentam a alma, como as caracter\u00edsticas positivas e de confian\u00e7a que cada um traz dentro de si, como heran\u00e7a! Gra\u00e7as a isso, pudemos desenvolver-nos \u2013 cada um \u00e0 sua maneira \u2013 em toda a vida, sabendo que, mesmo que faltasse o p\u00e3o, ir\u00edamos sair e procurar traz\u00ea-lo, com a for\u00e7a da nossa coragem e com a ousadia do nosso destemor, como a nossa m\u00e3e sempre fez (<em>e o nosso pai tamb\u00e9m, embora n\u00e3o com tantas possibilidades<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 morando eu no M\u00e9xico, ela ainda veio me visitar, mas j\u00e1 n\u00e3o era aquela mulher forte e destemida de antes: com a idade avan\u00e7ada, tornou-se uma pessoa dependente e resmungona; sinto que a nossa rela\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o foi a mesma de quando ela era mais nova e sempre me apoiava, at\u00e9 nas coisas menos transcendentes, como escolher modelos de vestidos e dar-me receitas de comida. Cuidou com muita dedica\u00e7\u00e3o e amor das minhas quatro filhas, quando eu tinha que viajar a trabalho, e j\u00e1 estava separada do meu primeiro marido. Tamb\u00e9m me deu muito apoio, ela e meu querido pai, quando vim estudar um mestrado no M\u00e9xico, ficando eles com todas elas em sua casa. Ela sempre foi uma pessoa muito presente na minha vida, dando apoio e trocando ideias comigo, a respeito do que eu ou ela quer\u00edamos fazer. Lembro dela com saudade, da mulher forte e corajosa, que me dava muito incentivo e apoio nas minhas decis\u00f5es. Embora eu tivesse ficado um pouco decepcionada com ela, quando veio me visitar, quando j\u00e1 n\u00e3o era aquela mulher valente e decidida que eu conhecia; \u00e9 que acho que eu nunca soube compreender o que o tempo e a vida fizeram com ela: a morte do meu pai a deixou muito abalada e um pouco sem vontade de enfrentar a vida sem ele, mas sinto que ela foi sempre uma pessoa muito significativa, amada e necess\u00e1ria na minha vida. Nos dias de hoje, ela e a minha av\u00f3 seriam consideradas como mulheres empoderadas, para usar a linguagem de hoje, com as caracter\u00edsticas de mulheres lutadoras e fortes dessa categoria, que conseguiram levar adiante a fam\u00edlia que at\u00e9 hoje somos, estando cada um de n\u00f3s, independentes e aut\u00f4nomos, em cada um dos quatro cantos do mundo! &nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha m\u00e3e foi uma das pessoas mais equilibradas que eu j\u00e1 conheci na vida: era inteligente, preparada, trabalhava e cuidava da casa e dos filhos (somos 4; isto \u00e9, depois da perda do meu irm\u00e3o, somos apenas 3). 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