{"id":86,"date":"2023-08-27T17:53:55","date_gmt":"2023-08-27T20:53:55","guid":{"rendered":"https:\/\/ipsislitteris.com\/?p=86"},"modified":"2024-04-16T16:01:24","modified_gmt":"2024-04-16T19:01:24","slug":"a-perda-do-meu-irmao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/2023\/08\/27\/a-perda-do-meu-irmao\/","title":{"rendered":"A perda do nosso irm\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Este m\u00eas (<em>junho<\/em>), que se prenunciava ser de muita alegria, foi, para mim e para meus irm\u00e3os Nelma e Francisco, de muita tristeza. Depois de v\u00e1rios anos de sofrimento e tratamentos severos, nosso irm\u00e3o Annibal morreu: de c\u00e2ncer de pr\u00f3stata, acho que a doen\u00e7a que mais ataca o g\u00eanero masculino, assim como o c\u00e2ncer de mama \u00e9 o que mais afeta comumente o sexo feminino.&nbsp; A alegria esperada se devia ao iminente anivers\u00e1rio dele, no dia 22 de junho, data em que ocorreu precisamente a sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9ramos (<em>t\u00e3o dif\u00edcil dizer <u>\u00e9ramos<\/u><\/em>!) quatro irm\u00e3os, e vamos custar a aceitar e acostumar-nos com o seu desaparecimento, assim como com a circunst\u00e2ncia de que, de agora em diante, sejamos s\u00f3 tr\u00eas.&nbsp; Parece uma coisa de pouca import\u00e2ncia relativa essa redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de membros da fam\u00edlia, neste caso, irm\u00e3os, mas para quem a sofre \u00e9 muito dolorosa, pois significa realmente uma perda, uma lembran\u00e7a distante, principalmente porque o destino de cada um de n\u00f3s levou-nos a viver em quatro lugares diferentes, propiciando uma aus\u00eancia constante entre todos os irm\u00e3os (<em>somos 4 e vivemos em 3 pa\u00edses diferentes<\/em>); isto quer dizer que n\u00e3o nos v\u00edamos com a frequ\u00eancia desejada, embora nos comunic\u00e1ssemos por mail e telefone. Como eu j\u00e1 disse, n\u00f3s moramos em 3 pa\u00edses diferentes: ele e o Francisco moravam no Brasil, em duas cidades diferentes, a Nelma mora na Fran\u00e7a \u2013 onde moram suas duas filhas \u2013 e eu moro no M\u00e9xico, aonde fui, desde 1984, viver com meu marido mexicano, e onde tamb\u00e9m vivem 3 dos meus 4 filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conversa com a minha irm\u00e3, por telefone, comentamos as duas que t\u00ednhamos muita pena de n\u00e3o poder ajud\u00e1-lo bem de perto, com a nossa presen\u00e7a f\u00edsica, nosso carinho e cuidado, mas \u00e9 que as dist\u00e2ncias s\u00e3o enormes e as viagens, bem dispendiosas, para poder chegar at\u00e9 ele, o que nem sempre \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil para n\u00f3s. Ainda assim, felizmente pudemos os tr\u00eas, alguns anos antes, concretizar uma viagem at\u00e9 Teresina, onde ele morava. Depois de uns trinta e tantos a quarenta anos, pudemos reunir-nos os quatro irm\u00e3os, e a\u00ed nos vimos diariamente, para desfrutar a companhia de todos os outros. Foi uma viagem \u00f3tima, de muitas lembran\u00e7as boas de quando \u00e9ramos todos pequenos e viv\u00edamos juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas lembran\u00e7as de quando \u00e9ramos pequenos ainda afloram \u00e0 minha mente (<em>e acho que \u00e0 de todos n\u00f3s<\/em>): \u00e0s vezes, \u00edamos passar deliciosas f\u00e9rias no interior do Maranh\u00e3o (<em>Coroat\u00e1<\/em>), em casa do meu tio Jo\u00e3o, per\u00edodo esse do qual me lembro com prazer e alegria: nossos primos Dagmar, Maria Am\u00e9lia, Guaraci, Agnelo, Jos\u00e9, Jaci, Raimundo, Doralice, V\u00edtor e Dalva (<em>um batalh\u00e3o!<\/em>), e nossos tios; tamb\u00e9m me lembro, nessa cidade, do Padre Estrela, que era vizinho do meu tio, e em casa dele eu e o Annibal \u00edamos plantar batatas (<em>literalmente<\/em>), para depois colher, cozinhar e comer. Era toda uma experi\u00eancia nova, de plantar ra\u00edzes, assim como de percorrer um quintal enorme, na casa do meu tio, apanhando frutas: amoras e tamarindos, que com\u00edamos com sal, sem preocupa\u00e7\u00e3o de nada. Outras f\u00e9rias bem legais eram em casa da minha av\u00f3 Militina, m\u00e3e do papai; ela morava em S\u00e3o Lu\u00eds, aonde \u00edamos todos de trem. S\u00f3 a viagem j\u00e1 era um alvoro\u00e7o, e as f\u00e9rias em si eram bem animadas: j\u00e1 n\u00e3o me lembro muito de todos os primos (<em>o papai e seus irm\u00e3os eram 10, ent\u00e3o j\u00e1 se pode imaginar a quantidade de primos<\/em>): Cremilda, Gracinda, Jofre, Maneco, Bita, Magn\u00f3lia, M\u00e1rcia, Gra\u00e7a, Martha, e muitos outros, de quem j\u00e1 n\u00e3o me lembro muito. A mam\u00e3e era filha \u00fanica, ent\u00e3o n\u00e3o t\u00ednhamos primos desse lado <em>(o tio Jo\u00e3o era irm\u00e3o da vov\u00f3, m\u00e3e dela)<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora tiv\u00e9ssemos uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dif\u00edcil &#8211; eu s\u00f3 imagino, porque isso n\u00e3o nos era dito  &#8211; nos divert\u00edamos muito. T\u00ednhamos a companhia dos vizinhos: Helenita, Humberto e Herbert Matos, a Nina Lago, a Edna Carvalho, e v\u00e1rios outros com quem brinc\u00e1vamos na pra\u00e7a Jo\u00e3o Lu\u00eds. Que eu me lembre, n\u00e3o havia uma separa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as por g\u00eanero nem idade: acho que todos \u2013 meninos e meninas &#8211; brinc\u00e1vamos com todos. Como estud\u00e1vamos de manh\u00e3, tenho ideia de que a hora da pra\u00e7a era de tarde, ou aos s\u00e1bados e domingos. Em casa, t\u00ednhamos os deliciosos doces da vov\u00f3, cujo neto preferido parece que era o Annibal, pois ela fazia os doces e separava o \u201cdele\u201d, talvez para ter a certeza de que ele comia, antes que n\u00f3s (<em>os outros<\/em> <em>irm\u00e3os<\/em>) acab\u00e1ssemos tudo. A gente se divertia muito com essa separa\u00e7\u00e3o, mas acho que n\u00e3o t\u00ednhamos ci\u00fame, pois ela sempre fazia tudo para todos. Tamb\u00e9m \u00edamos ao cinema, de tarde, quase sempre com a vov\u00f3. Ela era muito engra\u00e7ada, nos cuidava muito, n\u00e3o permitindo que ningu\u00e9m se atrevesse a mexer conosco.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa inf\u00e2ncia (<em>pelo menos, a minha<\/em>) foi muito feliz e divertida, e eu n\u00e3o tinha muita consci\u00eancia da nossa pobreza. Mor\u00e1vamos em casa alugada, mas sempre tivemos empregada e, de crian\u00e7as, t\u00ednhamos bab\u00e1. Lembro de todas elas: a Florisa, que foi minha bab\u00e1 e do Annibal. Da Nelma, acho que foi a Jacira, e do Francisco, a Teresa. Sempre ficamos amigos delas, principalmente da Florisa, que se casou, e foi morar em Timon, aonde nos convidavam de vez em quando, para almo\u00e7ar em sua casa. O marido dela trabalhava em uma f\u00e1brica de vidros, e eles nos deram de presente dois copos de vidro, com os nossos nomes marcados: Annibal e La\u00eds (<em>por muito tempo, ainda conservamos esses dois copos<\/em>). Tamb\u00e9m fomos, eu e o Annibal, convidados para ser padrinhos da filha da Florisa, a Marlene, que at\u00e9 chegou a ir v\u00e1rias vezes \u00e0 minha casa, muito tempo depois, quando eu j\u00e1 era casada.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram inf\u00e2ncias e adolesc\u00eancias simples, bem diferentes da vida de hoje. Lembro que n\u00e3o t\u00ednhamos muitos brinquedos (<em>umas bonecas, algumas de pl\u00e1stico [(lembra da \u201cdo p\u00e9 quebrado\u201d, Nelma?], m\u00f3veis e utens\u00edlios de cozinha: panelinhas, x\u00edcaras e pratinhos; os meninos tinham carros, soldadinhos de chumbo, pi\u00f5es<\/em>) e brinc\u00e1vamos na rua ou na pra\u00e7a, com os vizinhos amigos. Al\u00e9m dos j\u00e1 citados, tamb\u00e9m t\u00ednhamos o Pedro, Cl\u00e1udio, C\u00e1ssio e A\u00e9cio, filhos do senhor Pedro Almeida e dona Ang\u00e9lica, o Quincas, o Paulo Figueiredo (<em>nosso primo e colega de escola<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas reminisc\u00eancias foram motivadas pela morte do Annibal, que fez aflorar essas coisas \u00e0 minha lembran\u00e7a: parece que o desaparecimento dele \u2013 apesar da dor sentida com a sua partida &#8211; at\u00e9 me fez voltar \u00e0 minha inf\u00e2ncia feliz!<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, o que sentimos muito \u00e9 a falta do nosso irm\u00e3o. \u00c9 curioso que antes, quando a situa\u00e7\u00e3o era a mesma de hoje &#8211; isto \u00e9, ele ainda estava vivo, e n\u00f3s j\u00e1 mor\u00e1vamos longe dele &#8211; a consci\u00eancia da sua aus\u00eancia n\u00e3o era t\u00e3o presente quanto agora: sab\u00edamos que ele estava l\u00e1, embora doente, e n\u00e3o sent\u00edamos tanto essa dist\u00e2ncia que se interpunha. Mas, agora, que sabemos que ele j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1, o sentimento de aus\u00eancia \u00e9 diferente, e se transformou em perda.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sei que o tempo, e a continuidade da nossa vida, cada um com os seus afazeres do dia a dia, vai minorando essa saudade, e vai ficando s\u00f3 uma lembran\u00e7a boa, com as recorda\u00e7\u00f5es do que foi a nossa vida juntos, dos nossos encontros e passeios depois de separados e de alguns epis\u00f3dios acontecidos em algumas dessas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida \u2013 seja boa ou m\u00e1 &#8211; engole o tempo da gente, a gente n\u00e3o tem mais tempo nem de sofrer, e as lembran\u00e7as v\u00e3o-se desfazendo at\u00e9 virarem \u2013 e permanecerem &#8211; s\u00f3 recorda\u00e7\u00f5es vividas!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este m\u00eas (junho), que se prenunciava ser de muita alegria, foi, para mim e para meus irm\u00e3os Nelma e Francisco, de muita tristeza. 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