{"id":94,"date":"2023-08-29T18:07:17","date_gmt":"2023-08-29T21:07:17","guid":{"rendered":"https:\/\/ipsislitteris.com\/?p=94"},"modified":"2025-05-20T15:30:08","modified_gmt":"2025-05-20T18:30:08","slug":"fazer-o-que-gosta-e-gostar-do-que-faz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/2023\/08\/29\/fazer-o-que-gosta-e-gostar-do-que-faz\/","title":{"rendered":"Amizade n\u00e3o se imp\u00f5e"},"content":{"rendered":"\n<p>Eu tenho aqui muito poucas amigas de verdade, com quem eu posso dar boas gargalhadas, dar as minhas opini\u00f5es mais sinceras, inclusive sobre a sua forma de ser ou estar, com quem posso me sentir muito \u00e0 vontade, a quem posso confessar meus segredos quase inconfess\u00e1veis (<em>ali\u00e1s, eu acho que tenho mesmo poucos segredos inconfess\u00e1veis, coisas que eu n\u00e3o digo para ningu\u00e9m, nem para mim mesma \u2013 esses devem ser bem escabrosos!<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro de uma vez em que fui \u00e0 Embaixada do Brasil, quando ainda era no centro da cidade, e l\u00e1 conheci um rapaz brasileiro, tendo ele me convidado para tomar um caf\u00e9 em um restaurante ou caf\u00e9 perto de l\u00e1, sem nenhum interesse de \u201cligar\u201d, como dizem aqui, s\u00f3 mesmo para conversar um pouco. Mas, nem me lembro da conversa, s\u00f3 me lembro das boas gargalhadas que demos os dois <em>(t\u00e3o altas e espont\u00e2neas, que todo mundo \u2013 \u201ceducadamente\u201d, muito contido nesses lugares p\u00fablicos, eu acho \u2013 nos olhava)<\/em>, como se j\u00e1 f\u00f4ssemos velhos conhecidos e amigos (Amizade n\u00e3o precisa mesmo de muito tempo para acontecer! Nem \u00e9 uma coisa imposta, s\u00f3 por serem vizinhos ou colegas de classe. Por isso, voc\u00ea se d\u00e1 bem com alguns, e com outros nem tanto. Acho que isso \u00e9 afinidade!). Nem soube mais o que aconteceu com ele (<em>j\u00e1 nem me lembro do seu nome, e talvez j\u00e1 tenha voltado para a \u201cterrinha\u201d<\/em>), como que se diluiu no tempo, perdido na bruma do espa\u00e7o e na neblina do tempo&#8230; S\u00f3 sei que essa conversa, de umas 2 horas, ou menos, foi uma coisa t\u00e3o gostosa para os dois, que at\u00e9 hoje ainda me lembro, sem ter nenhuma saudade dele, nada disso! Eu estava muito apaixonada pelo meu marido, como ainda hoje estou. Nem sei se ele (<em>o brasileiro)<\/em> era casado, pois nosso interesse rec\u00edproco n\u00e3o ia nessa dire\u00e7\u00e3o (<em>quero dizer, de saber os la\u00e7os que j\u00e1 t\u00ednhamos, para estudar \u201cpossibilidades\u201d)<\/em>. Era mesmo s\u00f3 uma conversa de nada, de dois compatriotas que se acham \u201cperdidos no espa\u00e7o\u201d de um pa\u00eds estranho! Acho que era s\u00f3 um encontro \u201ccultural\u201d, no sentido de deparar-se com uma pessoa da sua mesma cultura, em um pa\u00eds diferente da sua p\u00e1tria! \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei por que, tenho certa dificuldade de travar amizade com as pessoas mexicanas, pois sinto que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3ximas como as minhas amigas brasileiras (<em>isso deve ser cultural<\/em>, <em>no sentido de conjunto de usos e costumes, n\u00e3o de preparo, conhecimento<\/em>), se escandalizam (<em>sem expressar)<\/em> um pouco com muitas coisas, ou gostam de bisbilhotar na vida, na intimidade, na idade, nos pre\u00e7os das coisas, e ao mesmo tempo contar vantagens, que eu nem sei se s\u00e3o verdadeiras, gostam de mostrar para os outros coisas que elas n\u00e3o s\u00e3o, e a maioria s\u00f3 fala das coisas maravilhosas que s\u00f3 o M\u00e9xico tem; ou ent\u00e3o a \u201cdiferente\u201d sou eu. Sou mesmo diferente, n\u00e3o gosto de todo mundo nem de todas as coisas nem lugares, nem das coisas referentes a eles <em>(lugares)<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho duas grandes amigas aqui, com quem eu posso partilhar coisas de que falei acima, mas elas est\u00e3o sempre muito ocupadas e moram muito longe de mim. Tenho algumas vizinhas, tamb\u00e9m amigas, com quem posso me relacionar bem: sa\u00edmos eventualmente para <em>\u201cdesayunar\u201d <\/em>&#8211; como chamam aqui o ato de tomar o caf\u00e9 da manh\u00e3 &#8211; elas tamb\u00e9m v\u00eam \u00e0s vezes tomar caf\u00e9, ou sorvete feito por mim, aqui na minha casa. Nossos encontros se tornaram mais escassos, principalmente nessa pandemia que estamos atravessando; por um lado, n\u00e3o sa\u00edmos de casa para visitar-nos; por outro lado, o meu marido est\u00e1 sempre em casa, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma boa oportunidade de a gente conversar uma com a outra.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho muita dificuldade de dar-me bem mesmo com algumas pessoas mexicanas, embora tenha feito algumas amigas, entre as m\u00e3es dos colegas do meu filho e algumas das vizinhas, que t\u00eam um pensamento mais pr\u00f3ximo ao meu, do ponto de vista de n\u00e3o pensarem possuir as melhores coisas materiais nem serem puritanas, nem se escandalizarem de tudo. Mesmo assim, alguma delas n\u00e3o aceitava a nora, acho que s\u00f3 porque era nora; outra tamb\u00e9m pensava que as mulheres s\u00f3 se aproximavam do filho porque ele \u00e9 rico, interessadas no dinheiro que ele tem.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ponto, s\u00e3o muito diferentes de mim, porque eu gosto muito das minhas \u201cex-noras\u201d e da minha \u201cnora\u201d, pois foram escolhidas por meu filho; acho que a minha nora atual gosta muito dele: trata-o bem e ele tamb\u00e9m gosta dela. Isso acontecia com todas as demais \u201cnoras\u201d que eu j\u00e1 tive (<em>todas elas ficam enlouquecidas por ele<\/em>) e eu gostava de todas e tinha por elas um carinho especial, fossem ricas ou pobres, feias ou bonitas (<em>eu achava todas bonitas<\/em>). <em>(Fazendo uma pequena digress\u00e3o, ainda hoje me mandam parab\u00e9ns no meu anivers\u00e1rio, ou mandam mensagens em qualquer ocasi\u00e3o).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Eu tenho mesmo certa dificuldade de conversar muito espontaneamente com pessoas que s\u00e3o muito diferentes de mim, que tenham uma diferen\u00e7a de vida muito acentuada, que pensam coisas demasiado superficiais e f\u00fateis, que n\u00e3o s\u00e3o do meu interesse. Claro que eu estou numa fase em que h\u00e1 poucas pessoas da minha idade cronol\u00f3gica, e principalmente da minha idade mental; minha capacidade e meus conhecimentos e interesses s\u00e3o muito diferentes dos da maioria das pessoas que eu conhe\u00e7o, da minha gera\u00e7\u00e3o; n\u00e3o posso partilhar a cultura do pa\u00eds com elas, porque teria que apreciar tudo que este pa\u00eds tem, e eu n\u00e3o posso fazer isso: fa\u00e7o algumas restri\u00e7\u00f5es ao pa\u00eds e sua cultura, comida, costumes, prefer\u00eancias etc., e como sou muito sincera n\u00e3o poderia cometer nenhuma hipocrisia. Ou ent\u00e3o, \u00e9 porque sou chata mesmo, e me permito ser, coisa inconceb\u00edvel por aqui: sempre se deve mostrar o \u00e2ngulo mais favor\u00e1vel poss\u00edvel para todos os demais. N\u00e3o posso ser assim: eu mostro os meus \u00e2ngulos verdadeiros, quer as pessoas gostem ou n\u00e3o, porque me d\u00e1 muito trabalho viver sempre atuando, como numa pe\u00e7a de teatro! &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estou tamb\u00e9m muito integrada com o meu marido <em>(ele se inclinou um pouco pela cultura brasileira)<\/em>, temos interesses de lazer muito parecidos, ent\u00e3o acho que isso afasta as minhas poucas amigas que n\u00e3o t\u00eam marido. Ainda n\u00e3o descobri em que consiste a minha grande dificuldade em ter amigas sinceras aqui; talvez seja mais aceita a hipocrisia do que a&nbsp; forma franca de pensar e dizer as coisas. Sinto que meus interesses est\u00e3o a anos luz da maioria, e realmente n\u00e3o me preocupa muito o fato de ter poucas amizades. Gosto mesmo \u00e9 de escrever, coisa de que nem todo mundo gosta, nem mesmo de ler o que eu escrevo, o que eu apreciaria muito; pode \u00e0s vezes despertar um pouco de inveja, sei l\u00e1. N\u00e3o do que eu escrevo, simplesmente de que eu escrevo. Ent\u00e3o, prefiro ficar na minha, para n\u00e3o ter que compartilhar bobagens, futilidades e grandezas com gente que s\u00f3 tem isso na cabe\u00e7a. E nem gosto s\u00f3 de coisas t\u00e3o s\u00e9rias assim; por exemplo, agora mesmo abri por acaso uma p\u00e1gina do face onde h\u00e1 uma mo\u00e7a que ensina maquiagem, uma coisa simples e f\u00e1cil, meio f\u00fatil e at\u00e9 boba, com poucos produtos e pouca pintura, ent\u00e3o me interessei. S\u00f3 que ela falava muito e n\u00e3o p\u00f4de terminar a aula, mas isso tamb\u00e9m \u00e9 o tipo de coisas que me interessam: o cuidado comigo mesma, e essa \u00e9 uma faceta minha superficial e f\u00fatil, eu reconhe\u00e7o, e me dou esse direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de terem-nos (<em>n\u00e3o me pergunte <u>quem<\/u>, porque eu n\u00e3o sei<\/em>) engavetado num mesmo bloco &#8211; <em>Am\u00e9rica Latina &#8211;<\/em> somos todos muito diferentes culturalmente falando (<em>digo aqui no sentido sociol\u00f3gico de conjunto de costumes, formas de ser e pensar, valores, interesses e outras coisas mais<\/em>). Sinto que tenho interesses diversificados e n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 coisas superficiais, como compras de roupas e sapatos; gosto de televis\u00e3o, de programas culturais, de desafios intelectuais, de ler e escrever, mas parece que aqui n\u00e3o encontro ningu\u00e9m para compartilhar esses gostos comigo. Talvez o \u201cmeu universo\u201d aqui seja muito diferente do meu. Na verdade, acho que nem me interesso em fazer muitas amizades. Eu sempre fui assim: de ter uma amiga ou duas, na secund\u00e1ria ou no cient\u00edfico, mesmo na faculdade, nos cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, e no mestrado, aqui no M\u00e9xico. Tinha v\u00e1rios conhecidos, mas n\u00e3o amigos de verdade. Atualmente, um dos meus \u00fanicos amigos \u00e9 o meu marido, que j\u00e1 me entendeu e me compreende. &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tenho aqui muito poucas amigas de verdade, com quem eu posso dar boas gargalhadas, dar as minhas opini\u00f5es mais sinceras, inclusive sobre a sua forma de ser ou estar, com quem posso me sentir muito \u00e0 vontade, a quem posso confessar meus segredos quase inconfess\u00e1veis (ali\u00e1s, eu acho que tenho mesmo poucos segredos inconfess\u00e1veis, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":235,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94"}],"collection":[{"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":721,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94\/revisions\/721"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/235"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ipsislitteris.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}