Laís Viegas de Valenzuela

Nossas riquezas: nosso orgulho

dezembro 9, 2023 | by ipsislitteris.com

As últimas notícias/informações que tenho tido do Brasil vêm repletas de pessimismo, desânimo, decepção, gosto de desgraças, violência, corrupção, desabamentos, homicídios, estupros, desrespeito, desastres naturais ou não, como as queimadas, enfim, como se o nosso país estivesse constituído só por essas coisas deploráveis. 

Com o propósito de procurar divulgar as coisas boas que ele tem – e que todo mundo conhece, mas parece esquecer, para lembrar-se apenas da má situação que atravessamos, relegando tudo o mais a um plano muito inferior – quero aqui resgatar as nossas “riquezas” (não me refiro às materiais, pois essas são bens adquiríveis): vou falar das boas coisas que nós temos e que às vezes passamos por alto, como se fossem inerentes a todos os demais lugares da terra, o que nem sempre é verdadeiro. Como é bom amar o que se tem, em vez do que quer ter (filosofia que eu professo); por que não aprender a apreciar nossas imensas riquezas brasileiras? . 

Primeiro, quero falar da nossa gente: de origem, como povo, somos alegres, bem humorados, hospitaleiros, solidários, prestativos, simples, habilidosos, empáticos, criativos e originais, enfim cheios de boas qualidades (pode ser que a situação de premência econômica que agora atravessamos tenha transformado um pouco o caráter dos brasileiros, como gente, para converter a maioria em tristes e mal-humorados, mas esta é uma característica conjuntural, devida à atual crise financeira, que não poderia deixar de afetar a nossa vida cotidiana).

Como indivíduos, eu gostaria de referir-me a alguns em especial, tais como os maravilhosos compositores/intérpretes de música popular que temos: Chico Buarque de Holanda (agora, com muita justiça, prêmio Camões de Literatura), Caetano Veloso, Gilberto Gil, Toquinho, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Djavan, Marisa Monte, Geraldo Vandré, Alceu Valença, Geraldo de Azevedo, Chico César, Beto Barbosa, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Zeca Pagodinho, Martinho, Zeca Baleiro, Tim Maia, Adriana Calcanhoto, Márcio Greyck, os saudosos Vinicius de Morais, Tom Jobim, João Gilberto, Noel Rosa, Cartola, Renato Russo, Torquato Neto, Taiguara, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Clara Nunes, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Sílvio Caldas, Nelson Gonçalves, Sérgio Cavalcanti, Haroldo Barbosa, Miltinho, Pixinguinha, Maísa Matarazzo, Dolores Duran, e grandes compositores/executores de música erudita, como Heitor Villa Lobos, Carlos Gomes, Nestor de Holanda Cavalcanti, Cussy de Almeida, Alberto Nepomuceno, Radamés Gnatalli, nem sempre conhecidos de todo público.

Certamente, esta lista não esgota os nossos autores, vivos ou mortos, como sempre acontece em toda enumeração. Nem todos vêm à mente, e são aparentemente preteridos ou esquecidos, do que me penitencio.  Compositores, todos os países têm, mas qual é o país que pode se dar ao luxo de ter um Chico Buarque, um Vinicius de Moraes, um Caetano Veloso, Toquinho e um Tom Jobim?  Não só pela quantidade de suas composições (do Chico, mais de 300, incluindo coautorias e versões), mas principalmente pela qualidade de suas letras, pela inspiração das suas canções (quem tem a ideia de se inspirar num simples caderno escolar para construir uma música linda e emotiva como aquela? Toquinho); Chico, que combina o perfeito domínio do idioma com frases e jogos de palavras de uma precisão poética, romântica, social, irônica, sensual e ingênua, e rimas que denotam seu vasto vocabulário, rimando português com línguas estrangeiras várias.. Citamos: Mulheres de Atenas (palavras eruditas, rimas, fina ironia, referências à mitologia grega), em parceria com o português Augusto Boal; a ironia contida em Olhos nos Olhos e Mil perdões, Meu guri (de profunda crítica social, como também a Construção), Folhetim, Geny e o zepelim, Bye Bye Brasil (onde mistura, perfeitamente rimadas, expressões estrangeiras), além da Feijoada Completa, Vai passar (aludindo à história do Brasil), Eu te amo (romance e sensualidade), Trocando em miúdos (a descrição real de uma penosa separação entre marido e mulher, com a repartição dos “bens” dita da maneira mais linda possível); enfim, uma coleção de primorosas e diversificadas letras, com narrações ou expressões de tristeza ou alegria, episódios da nossa vida cotidiana e uma incontável riqueza de fatos brilhantemente referidos.

Por outro lado, como diz, coberto de razão, o Caetano, “o Brasil tem um ouvido musical que não é normal”, pois as melodias da maioria das inumeráveis canções brasileiras, assim como as vozes de seus artistas – homens e mulheres – são incomparáveis, em qualidade e quantidade: o próprio Caetano, Maria Bethânia, Gal Costa, Fagner, Marisa Monte, Maria Gadu, Milton Nascimento, Ivete Sangalo, Nana Caymmi, Fafá de Belém, Raquel Cruz, Paula Fernandes, Marisa Monte, Toquinho, Vanessa da Mata, Alcione, Zizi Possi, e os saudosos Noel Rosa, Cartola, Herivelto Martins, Pixinguinha, Luís Gonzaga, Humberto Teixeira, Belchior, Maysa, e muitos outros, também aqui possivelmente esquecidos., como também muitos outros que ainda estão aparecendo.  Estou falando dos já profissionais e conhecidos, mas os anônimos de voz maravilhosa também são muitos e talentosos, basta ver o The Voice Brasil ou ir a qualquer boteco de esquina para ouvir cantores (homens e mulheres) anônimos, que deixam a gente de boca aberta.

Também integram a nossa riqueza imaterial nossos intelectuais: professores, escritores, filósofos, cientistas, inventores, antropólogos, etnólogos, entre os quais o brilhante Leandro Karnal, professor da valiosa Unicamp, Mário Cortella, Pondé, Clóvis de Barros Filho e outros cujo nome nem lembro, por estar há muito ausente do Brasil.

Falar dos nossos escritores e poetas – mortos e vivos – já é lugar comum: Machado, Rui Barbosa, Castro Alves, Gonçalves Dias, Aluísio de Azevedo, Olavo Bilac, Ferreira Goulart, Ariano Suassuna, João Cabral, Drummond, Bandeira, Mário Quintana. Vinicius de Moraes, Humberto de Campos, Graciliano, Lima Barreto, Raquel, Clarice Lispector, Alencar, Lins do Rego, Mário de Andrade, o Millôr, Jô Soares, Marcelo Rubem Paiva (certamente, esqueci alguém, porque essa enumeração não esgota o nosso estoque).     

Compõem ainda esse acervo de gente de bem todos os bons professores, nada famosos, ou pouco conhecidos, como alguns que eu tive a fortuna de encontrar, nos diferentes níveis acadêmicos que percorri. Cabe reconhecer aqui também os meus professores, no modesto estado do Piauí, como José de Arimathéa Tito Filho, Helena Rocha de Gresland, Lisandro Tito de Oliveira, Edgar Tito de Oliveira (excelente matemático, embora não tão didático como professor). Alguns deles, como o Arimathéa e a Madame Helena, me inspiraram mesmo a seguir a carreira universitária que cursei (Letras Neolatinas), tendo servido com seu exemplo e sabedoria para orientar muitos alunos, como eu, a saberem ouvir sua vocação e escolherem o que queriam fazer no resto da vida, ou parte dela.

Tenho ouvido também de cientistas, das mais diversas universidades do país inteiro, que fazem pesquisas ou inventam meios, destinados à cura ou redução dos efeitos daninhos de doenças, como câncer, Zica, mal de Alzheimer, Parkinson, Diabete, ou a minorar, com suas invenções e descobertas, as impossibilidades provocadas por deficiências mentais ou motoras, inatas ou adquiridas.

Como se, seguindo a afirmação de Marx (“A cada um segundo as suas necessidades e de cada um segundo as suas possibilidades”), cada um oferecesse aquilo que lhe é possível para atender à necessidade de cada outro.

Se, por um lado – como população – o povo brasileiro é vítima e às vezes agente da violência, doméstica ou social, machismo, agressões e desrespeito, invasão e indiferença, por outro lado, podemos presenciar ou ter notícia de casos de solidariedade e empatia, como vários acontecimentos recentes, noticiados ou não na imprensa e televisão: pobres ajudando pobres a reerguerem-se de situações de penúria extrema, compartilhamento de escassos bens materiais, doações e outros atos de ajuda, como ensino e treinamento, sem remuneração, pelo simples ato de ajudar desinteressadamente, e outros não lembrados aqui, por culpa da memória falha.

Outros, também, só de ouvir falar: boas ações e iniciativas, distribuindo a sua pobreza com quem tem menos ainda, os heróis anônimos, cujos feitos são às vezes divulgados pela televisão. Eu soube de um homem pobre, do interior de Pernambuco, que cata lixo reciclável, vende o que é comprável, e com o dinheiro constrói casas para seus vizinhos – junto com eles – e  já construiu até uma escolinha para as crianças sem possibilidade de ir nem mesmo às escolas públicas, tamanha é sua pobreza material; essa escolinha já está provida de material escolar, mesinhas e cadeiras para os alunos, conseguidos com recursos vindos da mesma fonte. Com a ajuda de professores voluntários, ou de boa vontade – que recebem um salário irrisório, mesmo para ser simbólico – as crianças da cidade conseguem entrar no mundo da ilustração e, como não era para menos, sabem ser profundamente reconhecidas ao seu benfeitor. Essa é só uma das inúmeras ações de solidariedade e empatia de que tenho tido notícia, mas há muito mais, que até mencionei em outros comentários escritos: seja um professor de esportes, que dá aulas grátis para crianças carentes, uma cabeleireira que trabalha gratuitamente para melhorar a aparência de seus vizinhos, igualmente carentes, que vão procurar trabalho; dono de banca de jornal que contrata ajudante e lhe arranja até lugar para dormir, e tirá-lo do banco de praça onde dormia. Felizmente, são inúmeras essas ações de solidariedade praticadas anonimamente no nosso país.

Fatos como esses ajudam a recuperar a perdida crença e confiança no ser humano como possuidor de sentimentos de compaixão, empatia e solidariedade para com seus semelhantes, e ter de novo fé na vida, enxergar uma saída para situações de desânimo e impotência.

Causa também vergonha/pena saber dos casos de corrupção, compra e venda de consciências, imposição de trocas de trabalho/pagamento, ganância em altos graus e níveis.  É uma vergonha que aqueles muito favorecidos economicamente não usem essas possibilidades materiais sobrantes para distribuir um pouco com os que nada têm, e que vivem em situações de carência em todos os aspectos da vida: alimentação, moradia, saúde, educação e bem estar material e moral, como consequência da elevada e permanente desigualdade de renda existente no Brasil. Parece que no nosso país as palavras compaixão, solidariedade, fraternidade e outras nessa linha se esvaziaram de conteúdo entre os estratos de mais altos níveis econômicos (pode haver exceções), dando lugar a uma vaidade excessiva ou uma competição desmedida, para ver quem galga as posições mais elevadas em matéria de conforto físico, esbanjamento de dinheiro, aquisição de bens suntuários, viagens frequentes e diversificadas (fugindo de que?), como se o dispêndio ou a acumulação de dinheiro fosse uma garantia de felicidade, realização e satisfação. Parece que essa emulação chega também à preocupação com ser elegante – como se essa meta fosse necessariamente garantida com a compra de artigos pessoais de luxo, de famosas grifes e altos preços (bolsas, sapatos, joias, roupas e acessórios; como se a elegância fosse conquistada com um preço) – na ideia de que tudo que é bom tem que ser caro, e de que tudo que é caro é necessariamente bom e de bom gosto. Talvez, o pior de tudo seja que, muitas vezes, esses bens materiais não preenchem realmente os vazios de quem os adquire, constituindo só uma casca que cobre as carências emocionais, afetivas, pessoais e a autoestima das pessoas. Se não há recheio consistente, não há nada que proteja a fragilidade da estrutura interna!  Não predico que todo mundo tenha que viver como São Francisco de Assis e fazer voto de pobreza: isso requer autenticidade, e não fachada, significando de verdade um esforço desmedido para abdicar de tanta matéria e doá-la aos desconhecidos, que a maioria das pessoas não é capaz de fazer. 

Não é nenhum pecado ter a vaidade de sentir-se bonita(o) e elegante. Isso consiste, com frequência, na simplicidade e autenticidade, até no exercício da caridade e da filantropia; em dar aos desvalidos um pouco (ou muito) do que nos sobra e a eles falta extremamente.

Também não é criticável possuir um transporte que nos leve aonde queremos ir, sem ter que ser o mais caro e potente da redondeza (melhor reservar a potência para outras necessidades), nem ter que ser em detrimento das necessidades daqueles realmente desprovidos até mesmo da possibilidade de sobrevivência biológica. É o cúmulo do absurdo  ter que admitir que em um país com tanta riqueza alimentícia como o Brasil tem, uma parte expressiva da população ainda sofra de fome, porque seus meios econômicos não alcançam para a aquisição de qualquer alimento para suas famílias, inclusive porque os meios de produção se acham concentrados em poucas mãos, que têm de sobra aquilo que falta a uma grande parcela do povo.

Não poderíamos omitir aqui os nossos recursos/belezas naturais que, além de incluírem o nosso povo e a nossa fauna e flora, também contempla os rios, lagos e lagoas, montanhas, planaltos e planícies do nosso Brasil, dos quais não falaremos agora. Existe já muita literatura e mapas, textos geográficos e turísticos (espero!) difundindo todo o esplendor dessas riquezas, expresso inclusive em números.

Apenas destacaremos aqui a nossa diversificada e bela, exótica e única fauna e flora: mamíferos e aves exclusivos, que embelezam e servem à natureza; árvores, arbustos e ervas que produzem alimentos e outros bens para nutrirem e integrarem a nossa indústria, pecuária e agricultura, em linguagem mais moderna, o agronegócio. O nosso país é tão grande que impossibilita a umas regiões de conhecerem o que se produz em outras, como os bons vinhos produzidos na parte nordeste do Rio São Francisco, quase ignorados na região sul, e os maravilhosos queijos fabricados artesanalmente no estado de Minas Gerais, desconhecidos para o Nordeste e possivelmente o norte, sendo consumidos localmente e exportados para o Rio de Janeiro.

A integração de todo o país é impossibilitada pelo seu tamanho continental, e as consequentes necessidades e dificuldades de comunicação interna desde a cidade de Oiapoque, no Amapá, até o arroio Chuí, no Rio Grande do Sul, pontos extremos do nosso país, de norte a sul, representam 4.180 km em linha reta (o que significa 7 dias e 4 horas de viagem por rodovias, numa distância de 5.777 km), só mesmo para dar uma ideia das nossas grandes dinensões.              

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