Laís Viegas de Valenzuela

As crianças do The Voice

agosto 25, 2023 | by ipsislitteris.com

The Voice

Como alguém que gosta de escrever sobre quase tudo, eu não poderia deixar de me manifestar sobre o talento inato das nossas crianças (as crianças brasileiras), que acabo de constatar no The Voice Kids: maravilhosas, encantadoras, tímidas, cativantes, ingênuas, brejeiras, mas principalmente maviosas! De fato, como diz o Caetano: “o Brasil tem um ouvido musical que não é normal”, e eu acrescento: para demonstrar esse ouvido quase absoluto, como os dos grandes compositores, emitem uma voz encantadora, afinada, bem colocada, também “absolutamente fora do normal”, têm vozes e o dom de fazer interpretações lindíssimas, como se fossem adultos cantores. Ver crianças de 10 anos cantarem, como o Yves, pernambucano, cantando e modulando uma música, em inglês, é de tirar o chapéu; ouvir o Amora, de Fortaleza, interpretando um “reggae” do Bruno Mars é um deleite; ele não só canta bem, quanto é gracioso para interpretar o ritmo e dançar; ouvir a Melissa,  gaúcha, cantar “I’ll allways love you”, afinadíssima e sedutora, produz na gente uma enorme emoção; a Jolie – que não me lembro de onde vem – é super graciosa, e tem muita personalidade para interpretar uma música infantil, de gatinhos; mas, não é só nas canções estrangeiras que essas crianças nos encantam: nas músicas do Lulu Santos, nas do Chico Buarque com Edu Lobo, e de muitos outros brasileiros, ou já compondo as suas próprias, são uma delícia de ver e ouvir. O meu país cada vez me impressiona mais, com seus talentos musicais (além de muitos outros). Sei que outras nações também possuem “estrelas”, mas que são promovidas e exaltadas, e causam sucesso por serem, quase sempre, filhos ou parentes de outras “estrelas”, como às vezes o nosso país não pode fazer, por falta de “talento” econômico, e por estarem esses meninos “escondidos” em atividades que os obrigam a ir “ganhar o pão com o suor do seu rosto”. Falo dos pobres mesmo, necessitados a ponto de terem que trabalhar, para ajudar a família. Se tudo que fizéssemos fosse tão celebrado como o fazem em alguns outros lugares, estaríamos no topo do mundo em matéria de música e voz. Os nossos cantores, que vêm tanto do sofrimento, quanto da dolência e do ritmo negro, que nos legou uma cadência e uma sensualidade incomparáveis, são verdadeiros “virtuoses” da canção. É verdade que alguns dos nossos compositores têm inspiração vinda de um berço de abundância ou, ao menos, de famílias organizadas e estruturadas (os Chico Buarque, os Edu Lobo, os Caetano Veloso, as Rita Lee), mas há outros que vêm de origens de muita escassez e carência (como os Pixinguinha, os Milton Nascimento,  os Mumuzinho) – estou desatualizada, por morar fora há tanto tempo, me perdoem os outros!    

Entendo que os técnicos do programa The Voice tenham as dificuldades que mostram sentir para escolher entre os candidatos, já em outras fases do certame. Para quem desconhece o programa, informo que numa primeira fase as crianças são selecionadas a partir de uma informação que elas fazem chegar à produção. No momento da apresentação, na audição “às cegas”, os técnicos não veem de início os candidatos, pois suas cadeiras estão de costas para quem está cantando. Então, primeiro escolhem só pelo que ouvem. Quando aqueles terminam de cantar, os técnicos viram as cadeiras e veem o candidato. Segundo o número de técnicos que escolherem um mesmo cantor, é este quem, por sua vez, escolhe o técnico que o vai preparar para as outras fases, quando então os escolhidos vão passando por um filtro (uma espécie de funil/peneira), até chegar à escolha do candidato vencedor.

Imagino que não deve ser fácil para uma criança ser objeto de uma “rejeição”, que é o que sucede quando nenhuma cadeira vira para ela, ou quando outros são selecionados em lugar dela (isso acontece quase com todas as pessoas, que sentem a mesma dificuldade de ser rejeitadas). Por mais que se saiba que um processo seletivo implica em tantas decepções, todo mundo sabe que qualquer criança quer ser escolhida e apreciada, o que nem sempre é possível.  Mas, no caso das que têm êxito, umas são preferidas sobre outras, como acontece em todo concurso.

No The Voice Brasil, há muitas crianças que têm uma voz linda e afinada, ou mostram graça na apresentação, ternura e bastante desenvoltura, como se tivessem sido treinadas para isso; muitas vezes, é um talento natural, inato.  Essa iniciativa é muito louvável, e as crianças pobres também conseguem seu lugar, pois já nascem com esse dom; muitas vezes, é essa uma forma de saírem do meio pouco adequado e hostil onde estão, para galgarem espaços mais altos, que as possam projetar no cenário artístico brasileiro.

A verdade é que a maioria dos cantores mirins do Brasil, não ensinados (por professores de canto) nem possuindo parentes que os “ajudem”, revelam vozes maravilhosas, ainda com aquele acento infantil, revelando a sua pouca idade, o seu muito talento e a sua grande capacidade. Quando são “descobertos”, passam a desfrutar das oportunidades oferecidas, mas às vezes estão tão longe dos palcos e passarelas – ocupados em ganhar o pão para sustentar-se e às suas famílias – que nem sonham com essa vida de artistas! Em um país que mantivesse as crianças num nível seguro e de abundância na comida, eles não precisariam estar dedicados a destilar o seu suor para manter as famílias, e então estariam livres para demonstrar o seu talento artístico, podendo fazer disso o seu ganha-pão. Alguns poucos – nem tão poucos, mas muito menos do que poderiam ser – têm a sorte de aparecer diante de pessoas ou instituições que podem incentivar esses dons, e aí o sucesso é garantido, mas outros vão viver sempre no anonimato da extrema pobreza, inclusive até fora das escolas, o que lhes tira a possivelmente única oportunidade de se mostrarem, com todo o esplendor das suas vozes. Vamos torcer para que, finalmente, possam sempre ser trazidos à luz esses talentos musicais, que lhes seja permitido deliciar os nossos ouvidos com a sua sonoridade, e que os farão deixar essas vidas tão difíceis e sofridas, para entrar no estreito corredor dos artistas famosos, muitos deles brancos e de famílias pelo menos remediadas!    

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